12/08/2019

Impressões Sobre a Terra Plana

Artigo publicado originalmente por Coalizão Conservadora.

Em 2016, eu estava assistindo a um live streaming da Estação Espacial quando resolvi ler alguns dos comentários. Quase imediatamente, notei que muitos participantes do chat enviavam a mesma mensagem: the Earth is flat. Esse foi o meu primeiro contato com pessoas que, ainda hoje, acreditam que o nosso planeta tem uma forma plana. De lá para cá, percebi que existem dois tipos de pessoas que afirmam isso (obviamente, a divisão desses dois grupos não é tão clara, e muitas dessas pessoas são as duas coisas ao mesmo tempo): aqueles que são simplesmente conspirólogos e duvidam de qualquer coisa (uma vertente tipicamente norte-americana entrelaçada na cultura dos EUA que, infelizmente, está sendo importada para o Brasil) e muitos cristãos que perceberam que a Bíblia (o Livro de Gênesis em particular) descreve a criação de uma Terra plana.

Sim, para quem ainda não notou, o relato de Gênesis 1 não está mostrando a criação de um planeta em formato de globo dentro de um universo formado por outros planetas, estrelas e galáxias em movimento, mas sim o surgimento de terra seca em meio a um caos aquático que foi separado em dois por uma espécie de cúpula sólida. Essa era a cosmologia do(s) autor(es) de Gênesis e foi a linguagem usada por ele(s) para explicar a sua teologia sobre o Deus que criou todas as coisas. O escritor de Gênesis não tinha um telescópio e não era adepto da cosmologia copernicana, a qual só surgiria quase 3 mil anos depois. Para aqueles que ainda duvidam disso, por favor leiam os livros de John Walton sobre a cosmologia do Antigo Oriente Próximo e a bibliografia indicada pelo autor.

Os terraplanistas, não querendo negar a literalidade do texto, pois acham que isso desacreditaria a Bíblia como revelação de Deus, afirmam categoricamente que a ciência está errada e que a Terra tem o formato descrito em Gênesis. Para explicar a sua hipótese, eles usam todas as teorias conspiratórias disponíveis, que vão desde "a NASA controla o mundo", até " todo piloto de avião sabe que a Terra é plana." Por outro lado, aqueles cristãos que não querem dar a entender que a Bíblia vai contra a ciência e a leem como se ela tivesse sido escrita na semana passada por professores de Oxford e Cambridge negam o contexto histórico em que Genesis foi escrito e não admitem que a Bíblia poderia afirmar algo que a cosmologia moderna já demonstrou como errado (vejam, por exemplo, o vídeo de Yago Martins sobre o assunto).

O ponto em questão é a natureza da Bíblia: que tipo de livro ela é? (1) um livro de ciência que descreve a realidade usando a mesma metodologia de uma monografia acadêmica moderna, ou (2) um livro que foi escrito há muito tempo e que usa a linguagem descritiva disponível aos autores da sua época? Responder a essa questão com a primeira opção é arrancar a Bíblia de seu contexto histórico e, de maneira forçada, espremê-la dentro de uma realidade que não é a dela. O resultado disso não poderia ser outro: a total má interpretação da Escritura, seja por aqueles que, querendo fazer dela uma tese de doutorado em física quântica, negam o real sentido do texto, ou por aqueles que, mesmo entendendo o que o texto realmente está dizendo, não querem admitir que a linguagem usada pelo autor não explica cientificamente como o universo surgiu.