Na fase mais recente da minha pesquisa, retornei ao meu projeto “Primórdios do cristianismo” ou, agora em termos mais precisos, ao meu projeto Christianity in the Making [Cristianismo em construção]. O primeiro volume foi publicado no ano da minha (prematura) aposentadoria da Universidade de Durham – Jesus Remembered [Jesus recordado] (EERDMANS, 2003). No decurso da preparação para ele, fui ficando cada vez mais intrigado pelo reconhecimento de que a tradição inicial sobre Jesus deve ter circulado em formas orais por um período de vinte a quarenta anos. Em contraste com isso, a maioria das investigações sobre a história da tradição do material que perfaz os evangelhos cristãos enfocara quase exclusivamente a sua interdependência literária, alimentando a inferência de que o desenvolvimento de Jesus até os evangelhos escritos não só podia como também deveria ser entendido em termos literários de copiar e redigir fontes escritas. Ora, é verdade que os três primeiros evangelhos (sinóticos) apresentam uma parcela significativa do material comum em termos estreitamente paralelos ou quase idênticos. E a conclusão lógica é que a melhor explicação para esse grau de similaridade é a interdependência literária. Porém, mais da metade do material compartilhado pelos evangelhos sinóticos é bem diferente e não é bem explicado em termos de interdependência literária. Em Jesus Remembered [Jesus recordado] e no texto mais breve New Perspective on Jesus [Nova perspectiva sobre Jesus] (BAKER, 2005), tento mostrar que o processo de tradição oral faz mais sentido para explicar esse material mencionado por último. Uma das consequências disso é que as diferenças entre os evangelhos não devem ser vistas como “erros” ou “contradições”, mas simplesmente como as diferentes formas assumidas pelas formas orais da mesma tradição. E que o caráter vivo da tradição sobre Jesus deveria advertir-nos para não ficar demasiadamente presos e limitados por formulações particulares.
James D.G. Dunn, Jesus, Paulo e os evangelhos, tradução de Nélio Schneider. – Petrópolis, RJ, Vozes, 2017. Edição Kindle. Posições do Kindle: 208-222.
22/11/2018
O Que é a Nova Perspectiva Sobre Paulo? James D. G. Dunn
O enfoque principal do meu trabalho sobre a linha de Paulo se tornou conhecido como “a nova perspectiva sobre Paulo”, um tópico surpreendentemente controverso para muitos dos que foram escolados na herança teológica da Reforma protestante na Europa. Para mim, a coisa começou a tomar corpo na preleção com o mesmo título que proferi em Manchester pouco depois da minha mudança para Durham. O estímulo para isso veio da demonstração feita por E.P. Sanders de que o judaísmo do Segundo Templo não foi de modo nenhum tão legalista como foi retratado pelo mundo acadêmico cristão e que a melhor caracterização do “padrão de religião” do judaísmo é como “nomismo pactual” (Paul and Palestinian Judaism [Paulo e o judaísmo palestino] [SCM, 1977]). Isso solapou a antítese demasiadamente pronunciada do luteranismo entre lei e evangelho e a suposição de que, quando colocou fé e “obras da lei” em antítese, Paulo estivesse pensando nas boas obras pelas quais se obtém a aceitação de Deus. O problema para mim, no entanto, foi que Sanders não conseguiu mostrar como Paulo lidou com o dito “nomismo pactual” e o que ele quis dizer com “obras da lei”. Tentei completar a nova perspectiva de Sanders sobre o judaísmo, mostrando que Paulo estava de fato se dirigindo ao tipo de judaísmo que Sanders retratou. As pistas que segui foram a insistência do próprio Paulo em dizer que era apóstolo dos não judeus/pagãos, e a evidência de que a expressão mais clara do seu ensinamento sobre “justificação pela fé” foi atingida quando ele defendeu sua convicção de que o evangelho a respeito do Messias Jesus também era destinado aos não judeus, a ser recebido pela fé. A inferência óbvia, a meu ver, foi que essa insistência na justificação pela fé voltou-se contra a alternativa de que a participação na herança de Abraão exigia que os não judeus se juntassem a Israel, se tornassem prosélitos. Nesse ponto, a antítese paulina entre “fé” e “obras da lei” remonta, em primeiro lugar, à recusa de Paulo de exigir que os crentes pagãos tomassem sobre si o jugo da Torá, tudo aquilo que a Torá afirmou. Como deixa claro o primeiro enunciado de Paulo sobre essa questão, exigir “obras da lei” dos não judeus (em adição à fé) equivalia, na visão de Paulo, a “obrigar os pagãos a adotar os costumes judaicos” (Gálatas 2,14-16).
Fonte: James D.G. Dunn, Jesus, Paulo e os evangelhos, tradução de Nélio Schneider. – Petrópolis, RJ, Vozes, 2017. Edição Kindle. Posições do Kindle: 184-198.
Fonte: James D.G. Dunn, Jesus, Paulo e os evangelhos, tradução de Nélio Schneider. – Petrópolis, RJ, Vozes, 2017. Edição Kindle. Posições do Kindle: 184-198.
10/10/2018
A Nova Perspectiva Sobre Paulo: Um Resumo
Nas
últimas três décadas, um avanço revolucionário na erudição do Novo Testamento
tem abalado o mundo acadêmico cristão. Os estudiosos na vanguarda dessa
revolução - E. P. Sanders, James D. G. Dunn, N. T. Wright e outros - foram os pioneiros
de uma nova abordagem das cartas do apóstolo aos gentios que viveu no primeiro
século, Paulo de Tarso.
Você também pode assistir a estes vídeos:
Esses
protestantes estão abordando o judaísmo do primeiro século em seus próprios
termos, não no contexto dos debates entre protestantes e católicos do século
XVI. O resultado: uma nova perspectiva histórica sobre o significado da
polêmica de Paulo contra os judaizantes, o que ocupa muito espaço na sua
correspondência registrada.
O
que é essa nova perspectiva? Em seu núcleo está o reconhecimento de que o
judaísmo não é uma religião de justiça própria através da qual a humanidade
procura merecer a salvação diante de Deus. O argumento de Paulo com os
judaizantes não era sobre a graça cristã versus o legalismo judaico. Seu
argumento era mais sobre o status dos
gentios na igreja. A doutrina da justificação de Paulo, portanto, tinha muito
mais a ver com questões sobre judeus e gentios do que com questões sobre o status do indivíduo diante de Deus.
Esta
nova perspectiva sobre Paulo promete nos ajudar a:
- Compreender melhor Paulo e a igreja primitiva;
- Reconciliar o conhecimento bíblico contemporâneo com a teologia;
- Construir um terreno comum entre católicos e protestantes;
- Melhorar o diálogo entre cristãos e judeus; e
- Construir um fundamento teológico para a justiça social.
Para entender melhor o assunto, recomendamos a leitura dos seguintes artigos:
- A Nova Perspectiva Sobre Paulo - Por James D. G. Dunn;
- A Forma da Justificação - Por N. T. Wright (em espanhol).
Você também pode assistir a estes vídeos:
- A Nova Perspectiva Sobre Paulo - Por Tiago Santana (18 min.);
- N. T. Wright e James Dunn Falam Sobre "A Nova Perspectiva Sobre Paulo" (11 min.);
- A Nova Perspectiva Em Paulo - Por Franklin Ferreira (78 min.).
04/10/2018
James D. G. Dunn: A Tradição Oral do Evangelho
Existe uma pergunta que
me incomoda há algum tempo: Se os autores do Novo Testamento enxergavam os
escritos do próprio Novo Testamento como os enxergamos hoje (palavra escrita de
Deus intocável e imutável), por que Lucas e Mateus pegaram o Evangelho de
Marcos e editaram, mudando palavras e acrescentando ou retirando trechos? Será
que isso não é um indício de que a forma como lidamos com o texto escrito,
cuidando de palavra por palavra, fazendo estudos filológicos quase
intermináveis, não era algo tão importante para os primeiros cristãos? Isso não
nos mostra que as palavras não eram tão importantes quando o significado da
mensagem? Para compreender melhor essa questão, precisamos entender como os
primeiros cristãos transmitiram a mensagem de Jesus de forma não escrita e ver
como essa atitude de transmissão se refletiu no texto que veio a ser escrito
posteriormente. A atitude dos primeiros cristãos em relação ao texto pode mudar
a nossa atitude se percebermos que estamos focando em coisas que eles não
focaram, como, por exemplo, mais nas palavras do que na mensagem em si. Um dos
estudiosos do Novo Testamento que mais me ajudaram a entender um pouco melhor
essa questão foi James D. G. Dunn. Abaixo, apresento a tradução, transcrição e
adaptação de uma entrevista que Dunn concedeu a Eerdmans Publishing.
A
Tradição Oral do Evangelho
Noventa por cento da
análise da tradição dos evangelhos tem assumido material escrito, que é algo editado.
A meu ver, não tem havido uma avaliação adequada dos trinta ou quarenta anos anteriores
à escrita dos evangelhos, onde tudo era predominantemente tradição oral. Quando
você levanta esse ponto para as pessoas, algumas dizem que não podemos voltar
nesse período, pois só conseguimos entender o processo como edição de alguma
fonte escrita. Eu me recuso a aceitar isso, porque esses primeiros trinta anos
são realmente importantes.
Algo importante para
mim é que podemos assumir que Jesus causou um impacto. Em outras palavras, por
trás de toda essa tradição sobre Jesus, não está simplesmente um carinha que
não casou nenhum impacto, onde tudo que foi dito sobre ele surgiu depois e foi
colocado na sua conta. Ele claramente causou um impacto, e eu estou satisfeito
em assumir isso. Sou bastante cuidadoso com os fatos que assumo, pois quero que
eles estejam muito bem estabelecidos.
Quando olhamos para os
evangelhos sinóticos (os primeiros a serem escritos), temos uma imagem bem
clara do resultado desse impacto nos trinta anos antes da tradição escrita. A
característica impressionante dos evangelhos sinóticos é que eles são muito do
mesmo, mas diferentes. Com isso, podemos ter uma imagem bem clara do impacto que
Jesus causou e como isso foi recebido. Nesse espaço de trinta anos antes de
surgirem os materiais escritos, temos uma grande quantidade de material (histórias
sobre cura, parábolas etc.) que os escritores dos evangelhos puderam usar, mas
eles contaram essas histórias de maneiras diferentes. Não é a mesma história. O
importante era o significado que estava tentando ser transmitido, não as
palavras.
Portanto, toda essa
questão que existe, principalmente com os cristãos conservadores, sobre a importância
das palavras escritas nos evangelhos está mal direcionada, porque o sentido, o
impacto que está sendo feito por meio dessas histórias, é o importante. Podemos
dizer que a tradição oral dos evangelhos é confiável em um sentido, mas não em outro?
Sim, mas depende de que sentido estamos falando. A tradição oral é confiável,
mas não no sentido de palavra por palavra, como se a única forma que os
escritores poderiam transmitir a história de maneira confiável fosse repetir as
palavras exatamente como foram ditas.
Quando eu estava no
começo de minha carreira, uma das coisas que surgiram sobre os evangelhos foi a
questão da história da cura do servo do centurião. Quando olhamos para essa
história, as duas versões não podem estar corretas ao mesmo tempo, porque, em
uma versão, o centurião vai pessoalmente falar com Jesus, mas, na outra, ele se
recusa a ir pessoalmente porque é humilde demais para fazê-lo, e pede para que
seus amigos chamem Jesus. Bem, essas duas versões não podem ter acontecido ao
mesmo tempo, porque são diferentes. O que deduzimos disso? Deduzimos que essas
versões não são confiáveis? Não! Deduzimos que não era importante escrever
exatamente palavra por palavra. Quando olhamos para o material dos evangelhos
sinóticos, vemos que as versões se assemelham mais em palavra por palavra na
parte do diálogo entre Jesus e o centurião. O antes e o depois do diálogo são
bem diferentes nas duas versões. Existe uma parte central da história onde a
questão de palavra por palavra era importante porque é esse diálogo que mostra
o sentido da história, mas a forma como a história foi construída para chegar a
esse diálogo e como podemos retirar ensinamentos dessa história foram
diferentes nas duas versões.
Isso se tornou um
modelo, para mim, de como compreender o período oral, antes de tudo ter sido
escrito. Eu diria que devemos considerar o período oral de forma muito mais
séria do que muitos estudiosos têm feito. Parte disso se dá pelo fato histórico
de que não existiam muitas pessoas que sabiam ler nos dias de Jesus. Apenas dez por cento da
população era letrada. Isso seria muitos dos fariseus, os escribas e provavelmente
mais ninguém. Portanto, aquelas pessoas não podiam fazer como nós, que
dependemos dos livros, que vamos a uma biblioteca para retirar dúvidas. Então,
todo o período da tradição oral precisa ser pensado de maneira diferente. Eu
acho que a ênfase das histórias se tornou uma questão nesse período, e podemos
ver isso nos evangelhos. É por isso que é bom ter os três evangelhos sinóticos
para podermos comparar, onde as histórias são as mesmas, mas diferentes.
Frequentemente, as histórias estão fazendo o mesmo ponto, ou um ponto similar
de maneira um pouco diferente. É assim que funcionava. Podemos, então, entrar
nesses trinta anos de espaço entre Jesus e a tradição escrita e ter uma imagem
bem clara sobre o impacto que Jesus causou, mas é uma imagem flexível de como
esse impacto chegou nos diferentes grupos de cristãos que produziram a tradição
escrita.
Uma das coisas que me
impressiona é como as pessoas não conseguem sair do período de tradição escrita
e voltar para o período da tradição oral. Se ficarmos no período escrito, então
nos limitamos a entender o que aconteceu do ano 50 d.C. para frente, vinte ou trinta
anos depois de Jesus, e não entenderemos o período anterior corretamente. Se
conseguirmos entender essa sociedade oral, compreenderemos melhor as coisas.
Uma característica que surge claramente no período oral é que o importante é o
cerne da história, o coração da história, a essência, o ponto que está sendo
feito pelo autor. O que vem antes e depois pode ser apresentado de forma
diferente, porque é o ponto central da história que precisa ser transmitido. O
resto pode ser diferente. Para mim, portanto, não importa se as duas versões da
história da cura do servo do centurião são contraditórias, porque esse não é o
ponto da história, e se você fizer disso o ponto da história, então não terá
entendido o que a história quer dizer. Precisamos distinguir entre a essência,
a substância da história, e a sua forma. Precisamos reconhecer que a essência é
a mesma, mas pode ser formulada, transmitida, de maneira diferente. Com isso,
começamos a compreender o que realmente importava para esses primeiros
discípulos. Isso nos previne de ter prioridades erradas, de depender demais da
palavra escrita como o mais importante no sentido de precisar estar totalmente
correta palavra por palavra, do que da substância da história que está sendo
contada.
02/09/2018
Jürgen Moltmann - Ecumenismo sob a Cruz
A união ecumênica e
renovação da igreja é uma coisa pela qual eu sempre tive muito apreço, e foi
também um dos propósitos do meu livro sobre a igreja. Nos campos de
prisioneiros de guerra, a única coisa importante era se a pessoa era um cristão
ou não, independentemente da denominação. A comunhão ecumênica das diferentes
igrejas não avançará se for mantida nos níveis superficiais de uma comparação
entre doutrinas e formas de organização; ela só terá sucesso se cada igreja se
voltar para a sua fundação e investigar as suas profundezas. É por isso que foi
dito o seguinte na conferência de Lund em 1962: 'À medida que buscamos nos
aproximar de Cristo, chegamos mais perto uns dos outros.' Eu levei isso um
passo adiante e disse: 'Sob a cruz, todos nós ficamos de mãos vazias. Nós não
temos nada para oferecer além do fardo de nossa culpa e o vazio de nossos
corações. Não estamos sob a cruz como Protestantes, Católicos ou Ortodoxos.
Pelo contrário, debaixo da cruz é onde os ímpios são justificados, os inimigos
são reconciliados, os prisioneiros são libertados, os pobres são enriquecidos e
os tristes são repletos de esperança. Descobrimos-nos, portanto, sob a cruz,
como filhos da mesma liberdade de Cristo e como amigos na mesma comunhão do
Espírito.
Eu não quis dizer isso
apenas no sentido espiritual, mas, especificamente, com referência à comunhão
da mesa de Cristo, que alguns cristãos chamam de Eucaristia, e outros de Ceia
do Senhor. 'O convite para a refeição eucarística é o acolhedor pedido do
Cristo moribundo que estava para se entregar por todos nós... Suas mãos
acolhedoras se abrem acima da refeição eucarística da mesma forma com que seus
braços estão estendidos sobre a cruz... Não vejo razão para que qualquer igreja
retenha as mãos abertas de Cristo, que estão estendidas para todos. Acho que
não há razão para recusar a Comunhão Eucarística a qualquer pessoa que ouve e
responde ao convite do Crucificado.' Depois de nos sentar juntamente com Cristo
em sua mesa, as diferenças da dogmática e do direito canônico podem ser
resolvidas, porque, depois disso, precisam ser resolvidas. Em 16 de outubro de
1975, eu proferi essas palavras na Universidade Lateranense, em Roma, na
presença do Cardeal Willebrand e, durante minha palestra, recebi aplausos
espontâneos do meu público católico. A réplica posterior do cardeal foi um
pouco forçada e requintada.
Mais tarde, mantive a
minha opinião com cada vez mais convicção. Primeiro vem a prática da celebração
partilhada da refeição de Cristo — em seguida, vem a teoria teológica e a discussão
sobre a doutrina da Ceia do Senhor. Pois, nessa refeição, estamos celebrando a
presença de Cristo não a correção de nossa teologia eucarística. O lugar para
discussão teológica ecumênica é a mesa depois da Ceia, não de antemão, fora dos
portões. Na minha opinião, dizer que uma celebração eucarística compartilhada
deve ocorrer somente quando o objetivo da unificação ecumênica das igrejas
tiver acontecido não está de acordo com o convite de Cristo: pessoas morrerão
de fome no meio do caminho. Naquela época, criei uma regra para mim mesmo:
participar da Ceia de Cristo sempre e em todo lugar que eu ouvir as suas
palavras de instituição e o seu convite, independentemente de qual seja a
igreja. Mas espero que a comunhão seja dada em pão e vinho, em conformidade com
a vontade e a promessa de Jesus, e que ela seja dada não apenas para os
sacerdotes, mas igualmente para os leigos também — ou seja, para todo o povo de
Deus. Considero a prática Católica de separação como algo não cristão. Minha
esperança ecumênica é que, com seu convite para a sua refeição, Cristo
prevaleça em todas as igrejas, para que a cristandade dividida possa reconhecer
a sua unidade nele e superar as suas divisões.
Fonte: Jürgen Moltmann, A Broad Place, SCM Press,
2007, pp. 208-10.
Tradução: Renan Rovaris
30/08/2018
O Abraço Ecumênico de Cristo
No interior da Catedral
de Altenberg, Alemanha, existe uma escultura chamada "Amplexus" (abraço, em latim), feita por Werner Franzen. Nela,
Jesus é retratado inclinando-se para a frente da cruz, abraçando Martinho Lutero,
o reformador protestante alemão, e Bernardo de Claraval, o famoso abade
católico francês conhecido por combater os hereges. Segundo Jürgen
Moltmann, a mensagem transmitida pelo artista é clara: debaixo da cruz de
Cristo, as divisões denominacionais do cristianismo acabam.
Nós, protestantes, por
diversas razões, temos uma atitude um tanto quanto fechada e partidária quando
afirmamos quem são ou não nossos irmãos. Isso não nos ajuda a compreender a
amplitude da igreja invisível. Precisamos lembrar que a igreja não começou com
Calvino, nem com Westminster ou Dort. Talvez não seja necessário levantar as
armas logo que ouvimos a palavra ecumenismo cristão. Afinal, o protestantismo
sempre falou que a igreja invisível é invisível justamente porque não pode ser
vista por meio de coisas externas.
Santo Agostinho
acreditava que o batismo perdoava pecados, era alegorista na sua interpretação
bíblica, falava favoravelmente sobre a oração aos mortos e, com seu misticismo
cristão, não era nem um pouquinho cessacionista. No final das contas, era mais
católico do que protestante. No entanto, para muitos protestantes,
principalmente reformados, Agostinho é tido como um exemplo de Cristão. Por que
aceitamos Agostinho, mesmo com as coisas que não concordamos, e não podemos enxergar
os católicos através de uma perspectiva mais ecumênica? Talvez pudéssemos olhar
para eles como irmãos que não têm uma teologia exatamente como a nossa, sabendo
que isso não os impede de serem cristãos verdadeiros. Afinal, a salvação é somente
pela fé em Cristo ou também pela exatidão teológica? Se for pela fé, não pode
ser pela teologia exata. Se for pela exatidão teológica, não pode ser somente
pela fé, e qualquer pessoa que acredita em uma doutrina errada estará fadada à
condenação eterna. Falamos que a inexatidão teológica dos pentecostais não os
impede de serem cristãos verdadeiros, ao mesmo tempo em que afirmamos que a
inexatidão teológica dos católicos torna-os incrédulos. Parece que estamos usando
dois pesos e duas medidas.
A unidade ecumênica das
várias igrejas cristãs pode se tornar algo menos doloroso quando a busca por
união parte do passado em comum de todas as tradições. A busca por unidade não
deve começar pelas diferenças do presente, mas pelas semelhanças do passado. Só
depois disso é que nos movemos para as ramificações das várias tradições ao
longo da história. Trata-se de uma visão em retrospectiva, retraçar a história
de cada tradição e chegar a um ponto de partida em comum. Quando cada tradição
traça o caminho de volta para as suas origens, encontra, nessa origem, a revelação
de Deus em Jesus Cristo, que é algo em comum para todas as tradições. Quanto
mais nos aproximamos de Cristo, mais nos aproximamos uns dos outros.
As diferenças
teológicas existem, e não creio que possam ser conciliadas de modo a desfazer o
cisma de 1517. Não precisamos largar nossas convicções teológicas em nome do
relativismo. Contudo, apesar de nossas convicções e diferenças, podemos entender
que a obra de Cristo é muito mais abrangente do que imaginamos. Se olharmos
para as nossas origens, veremos que todos cremos em Cristo, mesmo com
diferentes interpretações de como a obra vicária é aplicada aos pecadores. Se percebermos
que estamos, sob a mesma cruz, sendo abraçados por Cristo, talvez possamos
abaixar as armas teológicas e nos reconhecer mutuamente como cristãos.
23/08/2018
Em Direção a um Futuro Ecumênico
Em sua autobiografia,
após compartilhar algumas experiências frustradas com o movimento ecumênico,
Jürgen Moltmann afirma: "O resultado
da minha participação ecumênica, como confesso de bom grado, é o seguinte: a
minha origem é reformada - o meu futuro é ecumênico." O ecumenismo,
neste caso, é um ecumenismo cristão. A ideia por trás dessa afirmação de
Moltmann é que todas as tradições cristãs têm um fundamento, um ponto de
partida em comum. Se todas as igrejas olharem para esse fundamento, a revelação
de Deus em Jesus Cristo, poderá haver unidade, apesar das diferenças.
A minha origem é
reformada, ou seja, eu sou reformado, participo dessa tradição. Contudo, o meu
futuro é ecumênico, isto é, no futuro, no novo céu e nova terra, no eschaton, todos nós seremos salvos;
todos os cristãos serão salvos, independentemente da tradição. Com esse futuro
ecumênico, podemos enxergar o presente de maneira diferente.
No futuro escatológico
da salvação, na Nova Jerusalém, não existirão apenas protestantes, muito menos
somente reformados. É por isso que nosso futuro é ecumênico, pois, nesse
futuro, serão salvos cristãos de todas as tradições. A minha origem é
reformada, eu interpreto a Bíblia de acordo com a minha tradição, mas meu futuro
é ecumênico porque entendo que a salvação não é algo exclusivo dos cristãos que
compartilham as mesmas visões teológicas que eu tenho. As diferenças teológicas
entre as tradições não podem anular a soberania de Deus na eleição.
Como, então, essa visão
de ecumenismo futuro pode influenciar o nosso presente na convivência com
outras tradições? Se entendermos que não somos os únicos cristãos, se
compreendermos que nem todo reformado é um cristão verdadeiro e que nem todo
cristão verdadeiro é um reformado, se tivermos a humildade de admitir que a
nossa tradição não será a única a estar com o Senhor, se percebermos que,
apesar da divisão das igrejas, o corpo de Cristo não está dividido, então
conseguiremos, hoje, com essa perspectiva de futuro, viver em comunhão com
cristãos de outras tradições.
28/07/2018
A Teologia de Karl Barth
Karl Barth nasceu em 10
de maio de 1886, em uma família burguesa de Basel, Suíça. Seu pai era professor
de teologia, especialista no Novo Testamento.
Barth estudou em Berna,
Berlin e Marburg, recebendo a influência de Adolf von Harnack e da teologia
liberal. Pastor de 1911 a 1921 em Safenwil, uma pequena vila suíça, fez parte,
durante um primeiro período, da corrente do assim chamado socialismo religioso.
Em 1921, foi nomeado professor de teologia reformada na faculdade de Göttingen
devido ao sucesso obtido pelo seu comentário à Epístola de Paulo aos Romanos.
Ensinou em Münster e,
em seguida, em Bonn, até 1935, quando foi expulso da Alemanha pelo regime
nazista. Daí em diante, até 1964, ensinou em Basel, morrendo em 10 de dezembro
de 1968. Barth é um dos (poucos) teólogos que desenvolveram um pensamento
articulado e complexo, dividido em várias fases. Em uma primeira fase, os seus
mestres foram os teólogos liberais Hermann e Von Harnack; sua leitura preferida
eram as obras de Schleiermacher e Kant.
Em 1909, iniciando a
sua atividade pastoral, entrou em contato com a questão operária, viu a pobreza
material e cultural dos seus paroquianos e se convenceu de que a teologia
liberal que havia aprendido na universidade estava distante da condição
existencial dos fiéis. Além disso, a eclosão da Primeira Guerra Mundial fez com
que Barth se distanciasse de seus mestres alemães que haviam declarado apoio à
guerra. Para ele, a mensagem cristã e Jesus Cristo só poderiam ser
compreendidos fora dos esquemas históricos.
A fé é um dom da graça,
um encontro não dedutível entre o homem e Deus, um salto abissal que não se
pode explicar com as categorias filosóficas; ela se situa fora do tempo e da
história. As influências de Dostoiévski e Kierkegaard trouxeram Barth aos temas
e à sensibilidade do existencialismo, com os quais, no entanto, ele não se
identificava: para Barth, a centralidade está em Deus e não no homem e na sua
existência.
O resultado maduro
dessa primeira fase do pensamento de Barth é ‘A Epístola aos Romanos’ (Der Romerbrief), de 1922 (uma primeira
edição, que foi completamente revisada posteriormente, havia sido publicada em 1919),
que é o manifesto da assim chamada ‘teologia dialética’. Para Barth, a tarefa
da teologia é evidenciar a relação ‘dialética’, de ‘ruptura’, entre Deus e o
mundo (o homem, a cultura, a história), ao contrário da teologia liberal, que
apoiava uma continuidade entre Deus e o homem, considerando a fé como um
elemento da interioridade psicológica do homem e a teologia como a análise
histórico-crítica da Escritura.
Segundo Barth, a
Revelação de Deus é ‘crise’ do mundo. A Cruz de Cristo torna visível a
distância infinita que existe entre Deus e o homem. Enquanto o Deus da teologia
tradicional é o cume daquilo que é bom, belo e verdadeiro no mundo, o Deus de
Barth é aquele da ruptura e da contradição. Contra uma visão que reduz o
cristianismo à categoria do saber histórico e científico, concebendo-o como a
máxima expressão do gênio religioso da humanidade, o teólogo suíço afirma que o
conteúdo da Bíblia não se constitui de pensamentos corretos dos homens sobre
Deus, mas de pensamentos corretos de Deus sobre os homens.
Na Bíblia, não é dito
como nós devemos falar com Deus, mas o que ele diz a nós, não como nós
encontramos o caminho para alcançar a Ele, mas como Ele buscou e encontrou o
caminho nos para alcançar. Na segunda fase, Barth ameniza o tom e descreve a
relação entre a fé e a razão não mais de modo contrastante, mas busca conciliar
os dois termos.
A fé mantém a sua
primazia absoluta, ela é dom de Deus, proveniente da graça e não dedutível pela
história e pela psicologia. Todavia, o intelecto não é impedido de desenvolver
o seu papel: dentro da fé, cabe ao intelecto buscar entender e compreender.
Barth vê esse cenário em Anselmo de Cantuária e no seu ‘Proslogion’. Nessa fase do pensamento, Deus e o homem, fé e razão,
eternidade e tempo, estão em uma relação de maior colaboração.
A partir, por fim, dos
anos trinta, o pensamento de Barth sofre um desenvolvimento ainda maior,
testemunhado pela ‘Dogmática Eclesiástica’ (Kirchliche
Dogmatik), obra inacabada, de 13 volumes, que mantém o teólogo ocupado por
outros 30 anos. Para Barth, o coração da mensagem cristã é a ressurreição, a
salvação, a eleição, a graça e não a condenação, a transcendência, a ira de
Deus que rejeita o homem e o mundo.
O relacionamento entre
a transcendência de Deus e o encontro com o homem, que na primeira obra era
mais desequilibrado a favor do primeiro elemento, se reverte a favor do segundo
elemento, sem perder nada; Deus permanece sempre uma realidade transcendente ao
homem e jamais é possuído. Além disso, o pilar ao redor do qual deve girar toda
a teologia é Cristo, a humanidade de Deus, o lugar no qual Deus se faz homem e
restitui uma dignidade ao plano humano e histórico.
Por fim, para o nosso
teólogo, quando se fala de Deus em um discurso teológico, é necessário sempre,
em primeiro lugar, dar espaço à Revelação que o próprio Deus deu de si mesmo, a
sua Palavra, e, para fazê-lo, é necessário estar consciente do limite do
pensamento humano, colocando toda ‘filosofia’ a serviço de uma maior
compreensão da fé.
Uma síntese
extraordinária de todo o pensamento do teólogo de Basel se encontra em um admirado
Joseph Ratzinger, o qual, a respeito de Barth, escreveu:
“Karl Barth fez uma distinção, no
cristianismo, entre a religião e a fé. Ele estava errado em querer separar
completamente essas duas realidades, considerando positivamente a fé e
negativamente a religião.
A fé sem a religião é irreal, ela
implica a religião, e a fé cristã deve, pela sua natureza, viver como religião.
Mas ele tinha razão em afirmar também que, entre os cristãos, a religião pode
corromper-se e transformar-se em superstição; em afirmar, isto é, que a
religião concreta, na qual a fé é vivida, deve ser purificada continuamente a
partir da verdade que se manifesta na fé e que, por outro lado, no diálogo, faz
novamente reconhecer o seu próprio mistério e a sua própria natureza infinita”.
Publicado
originalmente por Korazym.org.
Escrito por
Fabio Cittadini.
Traduzido por
Renan Rovaris.
23/07/2018
O encontro entre Karl Barth e Billy Graham
Sem dúvidas, o maior nome da teologia do século XX é Karl Barth. Entretanto, um dos grandes homens
do movimento evangélico do século passado chama-se Billy Graham. Quem acompanhou
a teologia e as características de cada um deles consegue perceber as diferenças gritantes,
e seria muito interessante ver como eles enxergavam um ao outro. Não sei se temos
informações a respeito do que Billy Graham pensava sobre Karl Barth, mas
sabemos quais foram as impressões que Barth teve de Graham quando os dois se
encontraram em agosto de 1960. Eberharh Busch registrou esse encontro na sua biografia
de Karl Barth. “Karl Barth: His Life from Letters and
Autobiographical Texts, é a autobiografia que Karl Barth nunca escreveu. Busch
reuniu citações de cartas, livros e vários textos autobiográficos escritos por
Barth e os editou com mínimos comentários em uma biografia contada nas próprias
palavras de Barth.” [1] Abaixo, segue a descrição que Busch escreveu sobre o encontro entre Barth e Graham e o relato das impressões que o teólogo suíço teve
a respeito do grande pregador evangélico:
A mesma fronteira ficou
evidente em uma conversa que Barth teve com Billy Graham em agosto de 1960. O
seu filho, Markus, reuniu os dois no Valais. Entretanto, essa reunião também
foi algo amigável. ‘Ele é um “companheiro alegre e simpático”, com o qual
podemos falar facilmente e abertamente; temos a impressão de que ele é até
mesmo capaz de ouvir, o que não é sempre o caso com tais trompetistas do
evangelho.’ Duas semanas depois, Barth teve a mesma boa impressão depois de um
segundo encontro com Graham, dessa vez em sua casa em Basle. Mas, ‘foi bem
diferente quando fomos ouvi-lo se soltar no estádio St. Jacob naquela mesma
noite e testemunhamos a sua influência sobre as massas.’ ‘Eu fiquei bastante
horrorizado. Ele se comportou como um homem louco, e aquilo que apresentou
certamente não era o evangelho.’ ‘Era o evangelho com uma arma apontada na cabeça...
Ele pregou a lei, não uma mensagem para deixar alguém feliz. Ele queria
aterrorizar as pessoas. Ameaças – elas sempre causam um grande efeito. As
pessoas prefeririam muito mais estar aterrorizadas do que contentes. Quanto mais
alguém aquece o inferno para elas, mais elas vêm correndo.’ Mas nem mesmo tal
sucesso justificou tal pregação. Era algo ilegítimo transformar o evangelho em
lei ou ‘”empurrá-lo” como um item à venda... Devemos deixar a boa liberdade de
Deus fazer o seu próprio trabalho.’ [2]
Fontes:
[2] Busch, Eberhard. Karl Barth: His Life from Letters and Autobiographical Texts. Philadelphia: Fortress, 1976. 446.
21/07/2018
Os Últimos Dias Começaram (Jürgen Moltmann)
Por que muitos americanos leem a Bíblia como um
Calendário Codificado da História do Mundo?
Por Jürgen Moltmann
Um voo regular de um Boeing 747 sobre o
Atlântico está a caminho de Londres. O avião está completamente cheio. De repente,
a aeromoça vai até o capitão na cabine. Com os joelhos tremendo e a voz
falha, ela anuncia: dezenas de passageiros desapareceram. Seus sapatos, meias
e roupas ficaram para trás. O capitão olha em volta e encontra tudo em ordem na
primeira classe, enquanto uma mulher da segunda classe chora por seu marido
desaparecido. Ele chama o aeroporto de Heathrow, mas não pode pousar lá.
Incontáveis aeronaves caíram porque pilotos desapareceram de repente e
ninguém mais tinha o controle do tráfego aéreo. (2000, Tyndale House
Publishers, Inc/www.leftbehind.com)
O piloto voa de volta para Chicago. O mesmo caos
prevalece lá, mas ele recebe um espaço para pousar. A catástrofe é perfeita:
aviões caídos, carros colididos, trens descarrilhados e milhares de mortos. Vemos
imagens de salas de parto onde bebês desapareceram de repente do ventre de
mulheres grávidas, o noivo que estava no altar perdeu sua noiva, e classes
inteiras de uma escola nas Filipinas se dissolvem em nada. Quando o capitão
voltou para casa, sua esposa também havia desaparecido.
O que aconteceu? Para o capitão, a questão com Deus
estava, de alguma forma, bem, mas sua esposa frequentava regularmente estudos
bíblicos e pertencia a um grupo de cristãos que eram nascidos de novo. Isso lhe
deu uma pista. O seu pastor lhe explicou: os últimos dias começaram. Como a
Bíblia profetizou, os crentes verdadeiros serão "arrebatados" nas nuvens
com Cristo, enquanto os horrores do fim do mundo virão sobre os incrédulos
deixados para trás. Os últimos dias começam com o grande arrebatamento dos
crentes, e os incrédulos participam, durante sete anos, da grande tribulação,
com pragas, terremotos, tornados, enchentes e o terror do Anticristo no “sinal
da besta”. No entanto, Cristo voltará, matará o Anticristo e estabelecerá o seu
Reino de mil anos, onde os crentes governarão com ele enquanto os incrédulos
são destruídos.
É Marcada a Hora
Obviamente, isso é uma ficção, mas os leitores
são pessoas reais. Desde 1995, a série Left
Behind [Deixados Para Trás] (também transformada em filme), dos professores
de escola dominical Tim LaHaye e Jerry Jenkins, que começa com essa história,
apareceu nos Estados Unidos na forma de romance, com mais de 40 milhões de
cópias vendidas. Para o volume dez, "Os Remanescentes", houveram 2,5
milhões cópias compradas antecipadamente este ano [N.T.: 2002]. Somente metade dos leitores são cristãos evangélicos.
As vendas subiram 60 por cento após os ataques de 11 de setembro. Pessoas
seculares também perguntam: o fim do mundo está chegando? Muitos amam a
desgraça e a melancolia no mundo dos detetives e da ficção científica. "Beam me up, Scotty"* é, sem dúvida,
a maneira mais aceita de lidar com o mal. [*N.T.:
Expressão idiomática da língua inglesa retirada da série Star Trek e usada para
dizer que uma pessoa toparia qualquer coisa que lhe fosse oferecida.]
Em 1970, aconteceu um apocalipse fictício semelhante
no livro de Hal Lindsay, The Late Great
Planet Earth [A Agonia do Planeta Terra], que também obteve edições na casa
dos milhões. Naquela época, o Armagedom, a batalha final entre Deus e o diabo,
Cristo e o Anticristo, o bem aqui e o reino do mal lá naquele vale, foram
salientados. Com bombas nucleares ou de hidrogênio, o Exército Vermelho da
União Soviética anticristã seria destruído primeiro e, depois, seria a vez do
exército do Povo China que não tinha Deus. Lindsay serviu Ronald Reagan como conselheiro sobre o Oriente Médio e Israel, e convenceu o presidente a respeito
de um inevitável "Armagedom em nossa geração". Felizmente, Michail
Gorbatchev veio com sua política de paz. Parece que o cenário apocalíptico
sempre será atraente, visto que as pessoas seculares não entendem mais o mundo
depois do terror de 11 de setembro. De acordo com a Time/CNN, 59% dos
americanos temem que as profecias apocalípticas da Bíblia estejam se tornando
realidade, e 25% até mesmo acredita que a Bíblia profetizou o ataque
terrorista ocorrido em Nova Iorque.
Qual é a origem do típico encanto americano com
o fim do mundo? Isso está fundamentado teologicamente desde 1860 no dispensacionalismo do evangelista inglês John Nelson Darby, e se tornou popular
através da Bíblia de Referência Scofield, de 1909. Aqui, a Bíblia não é lida
como um testemunho de fé, mas como um calendário divino codificado para a história
do mundo. O número 666, por exemplo, se torna a chave da história do mundo.
Essa leitura da Bíblia é chamada de "Biblicismo", uma conquista do
início da era do Iluminismo. Assim como Newton desmistificou a natureza através
da descoberta de leis naturais, os primeiros "intérpretes bíblicos
proféticos" queriam enxergar através dos mistérios da história, através do
conhecimento do fim planejado da história. A ideia básica é simples: assim como
Deus criou o mundo em sete dias, a história do mundo, chamada de dispensação,
terá sete eras. Com a aparição de Cristo, entramos na sexta era, a era cristã.
Hoje, a sétima e última era do mundo se aproxima. A profecia bíblica precisa
ser profecia histórica. A profecia sobre os últimos dias está no Apocalipse.
Portanto, o Apocalipse de João é o livro mais importante da Bíblia.
Também existem interpretações do Apocalipse
feitas por Sir Isaac Newton. O seu mundo-máquina era, em última instância, um
mundo-relógio. Através do estado ou condição do mundo, devemos entender qual é
a hora que está sendo marcada. Na era de euforia geral com o progresso, a
perspectiva apocalíptica para os iminentes horrores do fim dos tempos ganhou
importância na reação fundamentalista contra o modernismo e o liberalismo do
mundo protestante. Essa perspectiva advém da mesma raiz da era do Iluminismo, a
qual procurou transformar a fé em conhecimento.
Arrebatamento Piedoso
Esse cenário do fim dos tempos não se origina
com Cristo, já que "a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os
anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai" (Marcos 13:32). O “arrebatamento”
dos crentes, a respeito do qual Paulo fala em 1 Tessalonicenses 4:17, não é um
escapismo para zombar daqueles deixados para trás, mas sim uma imagem na qual
os habitantes de uma cidade vão encontrar seu rei para encaminharem-no até a
sua cidade. Nada aponta para os horrores daqueles que ficaram para trás. O
futuro de Cristo acontece na terra, não no céu. Assim, seria melhor se os
crentes permanecessem fiéis para com a terra, mesmo nas catástrofes, e não
fugissem para o mundo vindouro. Em contraste, o sonho piedoso do arrebatamento
contém uma resignação que abandona esta terra à destruição. Qualquer pessoa
que, em sua fé, "deixa os outros para trás", abandona-os. Isso não pode
ser uma bendita esperança ou uma expressão de amor. Um Deus que apenas aguarda
para "arrebatar" tripulantes cristãos de suas aeronaves para que o
avião caia e milhares de pessoas sejam mortas não pode ser um Deus no qual
alguém possa confiar. Na verdade, isso é o ídolo perverso de um desprezo
patológico contra o mundo.
Tais ideias sempre existiram em círculos
sectários, mas transformaram-se num fenômeno de massas na América
contemporânea. Mais e mais americanos leem e falam sobre o fim do mundo, ao
mesmo tempo em que esse assunto deixa o europeu bastante frio. Por quê? Uma
terra que justifica seu destino desde o princípio na providência divina tem uma
fraqueza natural pelos profetas. Uma nação que queria construir um “novo mundo”
contra um “velho mundo” está inclinada a pensar em categorias de batalha
dualistas: aqui o bem, lá o mal; e “quem não é por nós é contra nós”. No século
XIX, a crença no progresso mobilizou a ascensão da América. Entretanto, três
movimentos apocalípticos dos “últimos dias” levantaram-se também: as Testemunhas
de Jeová, os Mórmons e os Adventistas. Hoje, muitos estão cambaleando entre uma
consciência de missão messiânica para o império americano e os medos do fim do
mundo. Esses são os dois lados de uma mesma moeda chamada egomania. Em
contraste, a fé cristã é humilde, duradoura e uma constante paixão pela vida.
Traduzido por Renan Rovaris.
Publicado originalmente por Portland IMC.
11/07/2018
Libertação e esperança: 10 citações de Jürgen Moltmann
Publicado
originalmente por Christian Today. Escrito por Andy Walton. Traduzido por Renan
Rovaris.
Um dos mais
proeminentes teólogos do mundo, Jürgen Moltmann é um pensador alemão reformado,
autor de vários livros e um dos teólogos mais importantes da nossa era. Ele
começou sua vida em uma família de ateus e entrou para o Exército Alemão.
Quando, no final da
Segunda Guerra Mundial, rendeu-se aos soldados britânicos, Moltmann se tornou
um prisioneiro de guerra. Atormentado pelas dúvidas e pela tristeza por causa
das atrocidades cometidas pelos nazistas, ele estava gravemente abatido. Mas
sua vida iria mudar. Quando ganhou uma cópia do Novo Testamento de um capelão
enquanto estava preso no Reino Unido, Moltmann descreveu o processo de ser
encontrado por Cristo: "Jesus me encontrou quando eu tinha 18 anos de
idade", disse o teólogo. "O testemunho de outros crentes e a leitura
das Escrituras - especialmente os Salmos e o Evangelho de Marcos - causaram um
impacto duradouro em mim e mudaram a minha vida para sempre."
A sua teologia tem
focado na libertação e na esperança, e não tem causado pouca controvérsia - ele
defende um certo tipo de universalismo. Mas, juntamente com sua inspiração,
Karl Barth, Jürgen Moltmann permanece como um gigante da teologia do século XX
(e XXI).
Abaixo, apresentamos 10
de suas mais inspiradoras e instigantes citações:
1.
"A ressurreição de Cristo não é meramente uma consolação para ele em uma
vida que é cheia de angústia e está fadada à morte, mas ela também é a antítese
de Deus ao sofrimento e morte, à humilhação e ofensa, e à perversidade do
mal." (Theology of Hope).
2.
"Deus não se torna uma religião, para que o homem participe nele através
da correspondência de pensamentos e sentimentos religiosos. Deus não se torna
uma lei, para que o homem participe nele através da obediência a uma lei. Deus
não se torna um ideal, para que o homem alcance comunhão com ele por meio de
uma batalha constante. Ele humilha a si mesmo e toma sobre si mesmo a morte
eterna do ímpio a do desolado, para que todos os ímpios e os desolados possam
experimentar comunhão com ele." (The
Crucified God).
3.
"Na ressurreição e exaltação de Cristo, Deus escolheu aquele que a moral e
os poderes políticos desse mundo rejeitaram - o Cristo pobre, humilhado,
sofredor e desolado. Deus se identificou com ele e fez dele Senhor do novo
mundo... o Deus que cria justiça para aqueles que sofrem violência, o Deus que
exalta Cristo humilhado e executado - esse é o Deus de esperança para o novo
mundo de retidão, justiça e paz." (Ethics
of Hope).
4.
"A esperança messiânica nunca foi a esperança dos vitoriosos e
governantes. Ela sempre foi a esperança dos derrotados e inferiores. A
esperança do pobre não é nada além do que a esperança messiânica." (The Way Of Jesus Christ).
5.
"Com Cristo, em fé, uma vida totalmente nova se inicia. Não se trata de
uma vida restaurada nem de uma vida rejuvenescida. Não se trata nem mesmo de
uma vida renascida desde sua origem. A ressurreição de Cristo não tem nenhum
protótipo histórico. Ela é algo completamente novo na história. Ela é o início
de uma nova criação de todas as coisas." (The Source Of Life).
6.
"A cruz não é algo historicamente acidental que poderia não ter acontecido.
O próprio Deus não é outro senão o amor. Consequentemente, o Gólgota é a
revelação inescapável da sua natureza em um mundo de maldade e
sofrimento." (The Trinity and the
Kingdom).
7.
"Nós experimentamos aquilo que a vida e a morte realmente são quando amamos,
pois em amor saímos de nós mesmos, nos tornamos capazes de sentir felicidade e,
ao mesmo tempo, podemos ser machucados." (Sun of Righteousness, Arise! God's Future for Humanity and the Earth).
8.
"Quando todas as esperanças morrem, vem uma onda do futuro como um
espírito de ressurreição para dentro dos ossos mortos (Ezequiel 37), criando
esperança contra a esperança." (Religion,
Revolution, and the Future).
9.
"Ninguém pode viver totalmente sem esperança. Viver sem esperança é parar
de viver. O inferno é desesperança. Não é por acaso que, sobre a entrada do
inferno de Dante, estão as palavras: 'Deixai para trás toda a esperança, vós
que entrais.'" (Theology of Hope).
10.
"O Deus da liberdade, o Deus verdadeiro, não... é reconhecido pelo seu
poder e glória na história do mundo, mas por meio da sua desesperança e da sua
morte no escândalo da cruz de Jesus." (The
Crucified God).
06/11/2017
A Arquitetura da Igreja Antiga
Artigo retirado do Dictionary of Late New Testament & Its
Developments, InterVarsity Press, Editores: Ralph P. Martin e Peter H. Davids,
pp. 91-95.
Tradução: Renan Rovaris
Arquitetura, Igreja
Antiga
Evidências literais e não
literais apontam para a residência doméstica como sendo a via para as reuniões
cristãs primitivas. Esse padrão é afirmado no Livro de Atos dos Apóstolos, onde
lemos que os primeiros crentes se reuniam em casas privadas, e nas cartas de
Paulo, onde vemos que as novas comunidades estabelecidas pelo apóstolo eram
centradas em casas. As reuniões de cristãos em casas privadas continuaram a ser
a norma até as primeiras décadas do século IV, quando Constantino (Imperador
Romano) começou a erguer as primeiras basílicas cristãs. Durante quase
trezentos anos, os crentes se reuniram em casas, não em sinagogas ou edifícios
construídos com o único propósito de reuniões religiosas.
- A Necessidade e Desenvolvimento de Casas-Igrejas
- A Casa-Igreja, 50-150
- Domus Ecclesiae, 150-250
- Aula Ecclesiae, 250-313
1. A Necessidade e o
Desenvolvimento das Casas-Igrejas
A reunião de cristãos em Casas-Igrejas
não ocorreu por acaso. Quatro razões se destacam para a escolha da casa como um
local de encontro. Primeiro, os “aposentos superiores” (At 1:13) e residências
domésticas estavam disponíveis imediatamente. Segundo, a estrutura doméstica
oferecia um local de encontro relativamente discreto. Embora o ambiente
doméstico não fosse uma garantia contra a perseguição, (veja At 8:3), nos
primeiros anos, quando a perseguição era uma ameaça, os cristãos eram discretos
ao fazer suas escolhas para locais de reunião. Terceiro, os judeus na Palestina
e na Diáspora se reuniam em Casas-Sinagogas. Visto que muitos dos crentes primitivos
eram judeus e prosélitos (gentios convertidos ao judaísmo), não é difícil
imaginar as comunidades cristãs adotando padrões judaicos, principalmente se
levarmos em conta a similaridade que havia entre as atividades da Casa-Igreja e
da Casa-Sinagoga. Quarto, a “casa” fornecia tudo o que era necessário para uma
reunião cristã e, o mais importante, também oferecia as instalações necessárias
para preparar, servir e tomar a Ceia do Senhor.
O período cristão primitivo de
50-313 pode ser dividido aproximadamente em três estágios de desenvolvimento.
Durante o primeiro estágio (c. 50-150), os cristãos se reuniam em casas
privadas que pertenciam a membros individuais, ou benfeitores, da comunidade. O
nome “Casa-Igreja” é mais apropriadamente aplicado a este período. A Casa-Igreja,
por definição, é uma casa, uma residência doméstica, que não teve sua
arquitetura alterada para a reunião cristã e era usada pelo menos
ocasionalmente pela comunidade cristã local ou por parte dela.
Durante o segundo estágio (c.
150-250), residências domésticas privadas foram renovadas para o uso exclusivo
de reuniões das comunidades cristãs. Em alguns casos, essas casas reformadas
haviam sido usadas anteriormente como um local de reunião pelos crentes durante
períodos mais antigos. Essas alterações arquitetônicas e mudança de função são
duas características da assim chamada domus
ecclesiae, apropriadamente traduzido ao português por “centro da
comunidade” ou “casa de reunião”.
Durante o terceiro e último período (c. 250-313), construções maiores e salões, privados e públicos, foram usados. Esses edifícios maiores precederam a arquitetura das basílicas da era de Constantino, e algumas delas podem ter funcionado como domus ecclesiae anteriormente. Tais construções tinham um formato retangular e não apresentavam nenhuma característica formal da arquitetura das basílicas posteriores.
Descobertas arqueológicas recentes
permitiram a reconstrução da história da arquitetura cristã. A discussão que se
segue aqui oferece os desenvolvimentos mais abrangentes da arquitetura das
igrejas anteriores à era de Constantino, juntamente com alguns exemplos
ilustrativos.
2. A Casa-Igreja
O Livro de Atos dos Apóstolos nos
apresenta uma imagem de crentes primitivos se reunindo regularmente em casas e
“aposentos superiores” (At 2:46; 5:42; cf. At 1:13, 15-16; 20:7-8). Duas
possibilidades se apresentam: a comunidade primitiva alugava um aposento que
era parte de uma residência doméstica (cf. P.Oxy 1129, 1036, 1038, 2190 e P.
Mich. Inventory 319) ou um benfeitor cristão e proprietário de uma casa
separava um aposento, ou um andar inteiro de aposentos, para o uso da
comunidade primitiva. Existem evidências
do Farisaismo do Segundo Templo confirmando que salões de segundo andar e salas
de jantar (triclinium) eram usados
como um local de estudo e haburoth,
ou reuniões da “irmandade” (e.g., M. Sabb. 1:4).
Em Atos 12:12, Pedro, tendo
escapado da prisão, vai até a casa de Maria, mãe de João Marcos, onde muitos
dos crentes estavam reunidos orando. Presumivelmente, essa era uma casa
disponibilizada regularmente para a comunidade. Os detalhes incidentais sugerem
que essa casa não fazia parte de uma insulae,
ou complexo de “apartamentos”, mas era uma casa grande com um acesso ou portal
que servia de separação entre a rua e o pátio interior e os cômodos.
Lucas não nunca mostrou toda a
comunidade pós-pentecostes reunida em um local. Se nós temos que entender o
número três mil como uma contagem acurada desses crentes em algum sentido, (At
2:41; cf. At 4:4; 5:14; 6-7), eles obviamente não poderiam ter se reunido
debaixo de um único telhado. A própria instrução de Pedro para o grupo reunido
na casa de Maria sugere a realidade de múltiplos lugares de reunião: eles
deveriam comunicar a sua libertação do cárcere para Tiago e “os irmãos” (At
12:17), que estavam presumivelmente se reunindo em outro lugar.
O problema da comunidade cristã
primitiva em garantir um número suficiente de casas para as suas reuniões pode
encontrar a sua solução no judaísmo do mesmo período. A maioria das sinagogas
eram cômodos únicos de casas. A maioria dos crentes primitivos que residiam em
Jerusalém eram judeus, e o seu número incluía indivíduos que possuíam meios
financeiros. É plausível que alguns desses judeus cristãos houvessem aberto
suas casas anteriormente (ou parte delas) para a comunidade da sinagoga. Teria
sido natural para esses patronos, tendo agora se tornado seguidores de Jesus,
usar as mesmas instalações como um lugar de reunião para a comunidade cristã.
Arqueólogos descobriram ruínas de
residências domésticas em Jerusalém que nos permitem ter um relance das
condições sob as quais esses cristãos primitivos podem ter se reunido.
Escavações em uma área a oeste da cidade (Cidade Alta) revelaram um distrito
residencial que incluía algumas casas bastante grandes. As unidades de
habitação individuais eram extensas, com pátios interiores, característica de
vilas luxuosas construídas no estilo do período helenístico-romano. Esse era o
local onde viviam as famílias nobres de Jerusalém.
A assim chamada Mansão Palacial é
um exemplo de residência ostentosa que poderia facilmente ter acomodado os
tipos de atividades descritas em Atos. A casa media mais de 600 m² e incluía um
andar superior para habitação e um porão para instalações de água (piscinas,
banhos e cisternas). A estrutura provavelmente incluía um segundo andar, um
nível formado por quartos, mas a destruição de Jerusalém no ano 70 tornou a
reconstrução desse andar impossível.
Os numerosos cômodos dessa
espaçosa mansão eram agrupados ao redor de um pátio. Os afrescos ornamentados
encontrados em muitos cômodos testificam a forte influência helenista, como
também pode ser observado em Pompéia. Duas características proeminentes são
dignas de nota: primeiro, o grande salão de recepção medindo 6,5 metros de
largura e 11 metros de comprimento (71,5 m²). O acesso vindo do pátio era
através de uma sala de separação por meio da qual outras áreas também podiam
ser acessadas. Nossa estimativa é de que esse salão de recepção poderia ter
acomodado setenta e cinco pessoas. O acesso para outros três cômodos menores
era feito somente através desse salão. Os afrescos ornamentados (colunas
Jônicas contendo um friso Dórico esquematizado) nesses cômodos sugerem um
caráter público. Tomando como um todo, o salão e os cômodos adjacentes teriam
acomodado muito confortavelmente cerca de cem pessoas.
A segunda característica são as
instalações de água no andar inferior. Juntamente com um pequeno e lindo
banheiro decorado, havia dois banheiros maiores para a realização de rituais,
cada um com uma entrada dupla. N. Avigad sugere que a ênfase na purificação
ritualística nesse domicílio beira um “culto de imersão.”
Atos fala sobre um número significativo
de sacerdotes que creram na pregação dos apóstolos (At 6:7). Embora Atos não
faça uma correlação entre esses sacerdotes e as reuniões domésticas, nós
encontramos um padrão consistente de convertidos que poderiam ter sido
benfeitores significativos, incluindo a provisão de casas para a comunidade se
reunir. Instalações com água como aquelas na Mansão Palacial poderiam ter sido
aproveitadas para batismos cristãos.
Vários textos em Atos (do capítulo 13 ao 18) e nas
epístolas paulinas fazem referência a residências privadas que eram usadas como
lugares para os cristãos reunirem-se e que eram onde o apóstolo encontrava
hospitalidade em suas viagens (veja 1 Co 16:19; Cl 4:15; Fl 2; Rm 16:5).
Na narrativa seletiva que Lucas
faz das missões de Paulo e do estabelecimento de igrejas pelo Império Romano,
encontramos Paulo convertendo consistentemente proprietários capazes de ser
benfeitores, incluindo o oferecimento de uma casa para a reunião dos cristãos
(e.g. Lídia, At 16, e Tito, o Justo, At 18). Isso era importante porque o
domicílio predominante em áreas urbanas era a insula, ou um complexo de
apartamentos: somente 3% da população viviam em um domus, ou casa. O número
desproporcional de insulae é
provavelmente uma evidência do alto custo de moradia. Ter uma casa e
propriedade era um dos indicadores principais de riqueza e status. Assim, a
conversão de uma família ou chefe de família era um meio estratégico de
estabelecer um novo culto em um ambiente desconhecido, e a família permaneceria
como a base mais forte para as reuniões dos cristãos.
É razoável assumir que, em Corinto,
por exemplo, Áquila e Priscila teriam aberto a sua casa para a comunidade
cristã. Quando se mudam para Éfeso com Paulo (At 18:18), eles estão com uma
“igreja em sua casa” (1 Co 16:19 e também algumas testemunhas apócrifas), e
quando mais tarde restabelecem sua residência em Roma (At 18:1-2), novamente
eles têm uma “igreja em sua casa” (Rm 16:3-5).
Visto que as Casas-Igrejas não
demandavam alterações arquitetônicas, seus restos arqueológicos são
indetectáveis, a menos que elas fossem posteriormente incorporadas a uma domus ecclesiae e/ou uma aula ecclesiae. Em Corinto, as
escavações das ruínas da vila romana nas imediações do Portão de Sicião (Sicyonian Gate), a casa nas mediações do
Templo E e a suntuosa vila em Anaploga são exemplos de residências nas quais a
comunidade primitiva teria se reunido.
3. Domus Ecclesiae, 150-250
A mudança radical na posição
social e na composição das comunidades cristãs demandou mudanças nos locais de
reunião. Mais precisamente, comunidades mais pobres continuaram a se reunir em
residências domésticas, mas em muitas áreas os cristãos começaram a adquirir
propriedade, talvez por meio de procurações através de um membro ou do bispo.
3.1. Cafarnaum, Galiléia. As escavações arqueológicas em Cafarnaum
sugerem que a antiga casa de Pedro foi transformada posteriormente em uma domus ecclesiae e pode ser a evidência
mais antiga do que foi originalmente uma Casa-Igreja. Diferente das ruínas em
Dura-Europos, as ruínas em Cafarnaum não permitem uma reconstrução perfeita do
edifício original e de sua história de desenvolvimento estrutural porque uma
igreja bizantina octogonal do século V foi construída no mesmo local e porque a
subsequente invasão persa de 614 resultou no fim do domínio cristão bizantino e
na demolição dos locais cristãos. Entretanto, com o renovado interesse na
Galiléia e com detalhados relatórios arqueológicos, uma reconstrução
satisfatória é possível.
Debaixo da igreja bizantina
octogonal estão os restos de duas construções mais antigas. Os restos mais
antigos testificam sobre uma insula
comum, ou construções acopladas, que eram habitações domésticas próprias da
pequena comunidade de pescadores de Cafarnaum. Dentro desse complexo, datando
do primeiro século d.C., há um grande salão (7x6.5 m = c. 45.5 m²) que foi
venerado por cristãos como sendo a casa de Pedro. Este salão provavelmente foi
usado pela comunidade local de cristãos judeus enquanto outros cômodos da
insula continuaram a funcionar como parte da residência doméstica. Essa adaptação parcial da casa, com os
cômodos circundantes continuando a fazer parte da vida do dia a dia, continuou
até o período romano tardio, quando a comunidade aumentou a antiga casa
adicionando ao salão um átrio ao leste e dependências ao norte e fechando toda
a pequena insula da casa de Pedro dentro de um recinto sagrado para servir às
necessidades da comunidade e dos peregrinos. Subsequentemente, esse complexo
inteiro foi suplantado pela igreja octogonal do século V.
3.2. Dura-Europos, Síria. A evidência de Dura-Europos, uma cidade
de guarnição do século III na Síria, provê o testemunho arqueológico mais
convincente de uma domus ecclesiae
cristã. De forma conservadora, estima-se que a casa privada foi construída em
232/33 e renovada (de uma só vez) em cerca de 240/41. Embora seja um pouco
maior do que a maioria das habitações privadas em Dura, a sua aparência
exterior não teria sugerido algo além de uma habitação privada.
Os restos foram descobertos em um
estado de conservação relativamente bom em 1931, e o edifício cristão foi
escavado de 1932 a 1933. A boa qualidade das ruínas se deve ao fato de que Dura
foi destruída em 236 pelos Sassânidas e não foi mais repovoada.
Quando a casa foi reformada pelos
cristãos, três mudanças maiores foram introduzidas. Primeiro, a parede
dividindo o divã e o cômodo adjacente foi removida, criando com isso um grande
salão de reunião medindo 12.9 x 5.15 m (c. 66.5 m²). À ponta leste do cômodo,
havia uma pequena plataforma, ou estrado (trono), que provavelmente foi usado
durante a leitura e o ensino. Um cômodo menor foi transformado em um
batistério. Essa parece ser a evidência mais antiga de uma adaptação estrutural
com o propósito de construir uma fonte batismal. Uma marquise também foi
instalada, e as paredes foram decoradas com afrescos. O pátio central foi
coberto com azulejos (mosaicos) e bancos (50 cm de comprimento e 42 cm de
altura) foram construídos ao redor das paredes. Todas essas renovações sugerem
uma comunidade cristã desenvolvida e organizada. É difícil determinar, porém,
se os jantares comunais eram realizados nesta domus ecclesiae em particular.
Dentre as razões para a transição
da Casa-Igreja para a domus ecclesiae
estão o tamanho da comunidade e a diversidade das atividades. Em meados do ano 250,
por exemplo, os crentes em Roma eram cerca de três mil. Tal crescimento tornou
necessária a remodelação de estruturas existentes. A necessidade de acomodar
atividades diversas deixou sua marca nas características arquitetônicas. Por
exemplo, a separação da Eucaristia da Festa do Amor (Jantar Ágape) significava
que um local para jantar e para cozinhar não era mais necessário. Ao invés
disso, um local formal foi implementado (incluindo um “trono”, Didascalia Apostolorum 12) com a
comunidade virada para o estrado, ou trono. Uma distinção foi feita entre os
catecúmenos e os membros, e características particulares, como as fontes
batismais, foram adicionadas. Deste modo, foi realizada a transição da Casa-Igreja
para a domus ecclesiae.
4. Aula Ecclesiae, 250-313
Certas ruínas preservadas debaixo
de algumas igrejas em Roma mostram antigas estruturas usadas por comunidades
cristãs. Muitas dessas antigas tituli
(um termo legal relacionado ao estabelecimento de propriedade, ou título) de
Roma se tornaram locais de basílicas, preservando uma tradição de um “local
sagrado” (loca sancta). A Basílica S.
Crisogono (Titulus Chrysogoni) é um
exemplo incontestável de uma aula
ecclesiae em Roma. Ela está localizada na antiga Via Aurelia, e a basílica foi construída através da incorporação de
um grande salão retangular preexistente (29.5 x 15.25 m). Esse salão em
particular data do início do século IV (c. 310).
Essa estrutura pré-Constantiniana
foi usada como uma construção da igreja, mas o salão não era reconhecido como
tal. Ele era um tipo comum de salão de reuniões romano encontrado em construções
administrativas e outras. As únicas indicações que podem ser reconhecidas do
seu uso pelos cristãos são o anteparo para o coro e cômodos laterais que
poderiam ter sido reservados para os catecúmenos.
Embora o uso da domus ecclasiae tenha continuado até o
século IV, no início desse mesmo século, os cristãos começaram a usar
construções públicas como locais de reunião. Essa mudança acompanhou o colapso
das perseguições periódicas (e.g., Diocleciano em 303-5) e o reconhecimento do
cristianismo por Constantino, o que culminou no Édito de Milão em 313.
07/07/2017
"Alegria é a forma mais simples de gratidão": 12 citações de Karl Barth, o teólogo legendário
Publicado originalmente em Christian Today por Joseph Hartropp.
Karl Barth, pastor suíço, pensador enigmático e indiscutivelmente o maior teólogo do século XX, foi um escritor prolífico. Sua teologia se ergueu como um desafio para a teologia liberal do século XIX, predominante em seus dias. Enquanto alguns desejavam reformar a teologia através da luz dos avanços intelectuais do pós-iluminismo, Barth enfatizou a total dependência da humanidade na revelação de Deus -- apreendida em última instancia na pessoa de Jesus Cristo -- para o conhecimento de Deus e da realidade.
A aversão de Barth à "religião" humana -- a qual ele viu como uma tentativa de se "apossar" de Deus -- foi vindicada pelo suporte das igrejas alemãs aos objetivos de guerra da Alemanha em 1914. Na rendição aos planos do Kaiser, Barth viu os perigos de uma igreja que não tem distinção da cultura humana ao redor dela.
Na Segunda Guerra Mundial, Barth fez parte da Igreja Confessante, que resistiu fortemente contra o fantasma do Nazismo.
A sua obra icônica e volumosa, Church Dogmatics [ainda sem tradução ao português], demonstra o seu grandioso intelecto, mas ele também tinha um coração pastoral e uma mensagem simples no centro de sua teologia. Certa vez, depois de uma palestra em Chicago, perguntaram a Barth se ele poderia resumir a sua teologia em apenas uma frase. Ele respondeu com a letra de uma música que a sua mãe havia lhe ensinado: "Jesus Cristo me ama, disso eu sei, porque assim a Bíblia me diz."
Abaixo seguem 12 citações de Karl Barth que são muito interessantes:
1. Ninguém pode ser salvo -- em virtude do que alguém pode fazer. Todo mundo pode ser salvo -- em virtude do que Deus pode fazer.
2. Juntar as mãos em oração é o início de uma insurreição contra a desordem do mundo.
3. O riso é a coisa mais próxima da graça de Deus.
4. Isto é certo: nós não temos nenhum direito teológico de colocar qualquer tipo de limite à bondade amorosa de Deus que apareceu em Jesus Cristo. Nosso dever teológico é ver e entender isso como sendo ainda maior do que havíamos visto anteriormente.
5. O teólogo que trabalha sem alegria não é um teólogo de maneira nenhuma. Caras carrancudas, pensamentos sombrios e formas tediosas de falar são intoleráveis nesse ramo.
6. Como ministros, nós devemos falar de Deus. Mas somos humanos e, portanto, não podemos falar de Deus. Devemos, então, reconhecer nossa obrigação e inabilidade e, através desse reconhecimento, dar glória a Deus.
7. Alegria é a forma mais simples de gratidão.
8. A Comunhão é oferecida a todos, tão certamente quanto Jesus Cristo -- o qual vive -- é para todos; tão certamente como todos nós não somos divididos nele, mas pertencemos juntos como irmãos e irmãs. Todos nós, pobres pecadores; todos nós, ricos por meio de sua misericórdia. Amém.
9. Aqui, o Deus escondido, eterno e incompreensível, tomou forma visível. Aqui, o Todo Poderoso é poderoso em um acontecimento muito definido, particular e terreno. Aqui, o criador se tornou criatura e, portanto, realidade objetiva.
10. Céus e terra, natureza e homem, comédia e tragédia,[...] a Virgem Maria e os demônios [...]. Mozart simplesmente contém e inclui tudo isso dentro de sua música, em perfeita harmonia. Essa harmonia não é uma questão de "balanço" ou "indiferença" -- é uma gloriosa perturbação do balanço, um giro no qual a luz se levanta e as sombras caem, no qual o Sim soa mais alto do que o sempre presente.
11. Qualquer um que tenha brigado com a descrença deveria ser avisado de que ele não deveria levar a sua descrença tão a sério.
12. Quando esgotamos a nossa inteligência em busca de uma resposta, então o Espírito Santo pode nos dar uma resposta. Mas como Ele pode nos dar uma resposta quando ainda estamos muito bem supridos com todo tipo de respostas que produzimos?
Karl Barth, pastor suíço, pensador enigmático e indiscutivelmente o maior teólogo do século XX, foi um escritor prolífico. Sua teologia se ergueu como um desafio para a teologia liberal do século XIX, predominante em seus dias. Enquanto alguns desejavam reformar a teologia através da luz dos avanços intelectuais do pós-iluminismo, Barth enfatizou a total dependência da humanidade na revelação de Deus -- apreendida em última instancia na pessoa de Jesus Cristo -- para o conhecimento de Deus e da realidade.
A aversão de Barth à "religião" humana -- a qual ele viu como uma tentativa de se "apossar" de Deus -- foi vindicada pelo suporte das igrejas alemãs aos objetivos de guerra da Alemanha em 1914. Na rendição aos planos do Kaiser, Barth viu os perigos de uma igreja que não tem distinção da cultura humana ao redor dela.
Na Segunda Guerra Mundial, Barth fez parte da Igreja Confessante, que resistiu fortemente contra o fantasma do Nazismo.
A sua obra icônica e volumosa, Church Dogmatics [ainda sem tradução ao português], demonstra o seu grandioso intelecto, mas ele também tinha um coração pastoral e uma mensagem simples no centro de sua teologia. Certa vez, depois de uma palestra em Chicago, perguntaram a Barth se ele poderia resumir a sua teologia em apenas uma frase. Ele respondeu com a letra de uma música que a sua mãe havia lhe ensinado: "Jesus Cristo me ama, disso eu sei, porque assim a Bíblia me diz."
Abaixo seguem 12 citações de Karl Barth que são muito interessantes:
1. Ninguém pode ser salvo -- em virtude do que alguém pode fazer. Todo mundo pode ser salvo -- em virtude do que Deus pode fazer.
2. Juntar as mãos em oração é o início de uma insurreição contra a desordem do mundo.
3. O riso é a coisa mais próxima da graça de Deus.
4. Isto é certo: nós não temos nenhum direito teológico de colocar qualquer tipo de limite à bondade amorosa de Deus que apareceu em Jesus Cristo. Nosso dever teológico é ver e entender isso como sendo ainda maior do que havíamos visto anteriormente.
5. O teólogo que trabalha sem alegria não é um teólogo de maneira nenhuma. Caras carrancudas, pensamentos sombrios e formas tediosas de falar são intoleráveis nesse ramo.
6. Como ministros, nós devemos falar de Deus. Mas somos humanos e, portanto, não podemos falar de Deus. Devemos, então, reconhecer nossa obrigação e inabilidade e, através desse reconhecimento, dar glória a Deus.
7. Alegria é a forma mais simples de gratidão.
8. A Comunhão é oferecida a todos, tão certamente quanto Jesus Cristo -- o qual vive -- é para todos; tão certamente como todos nós não somos divididos nele, mas pertencemos juntos como irmãos e irmãs. Todos nós, pobres pecadores; todos nós, ricos por meio de sua misericórdia. Amém.
9. Aqui, o Deus escondido, eterno e incompreensível, tomou forma visível. Aqui, o Todo Poderoso é poderoso em um acontecimento muito definido, particular e terreno. Aqui, o criador se tornou criatura e, portanto, realidade objetiva.
10. Céus e terra, natureza e homem, comédia e tragédia,[...] a Virgem Maria e os demônios [...]. Mozart simplesmente contém e inclui tudo isso dentro de sua música, em perfeita harmonia. Essa harmonia não é uma questão de "balanço" ou "indiferença" -- é uma gloriosa perturbação do balanço, um giro no qual a luz se levanta e as sombras caem, no qual o Sim soa mais alto do que o sempre presente.
11. Qualquer um que tenha brigado com a descrença deveria ser avisado de que ele não deveria levar a sua descrença tão a sério.
12. Quando esgotamos a nossa inteligência em busca de uma resposta, então o Espírito Santo pode nos dar uma resposta. Mas como Ele pode nos dar uma resposta quando ainda estamos muito bem supridos com todo tipo de respostas que produzimos?
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