30/08/2018

O Abraço Ecumênico de Cristo


No interior da Catedral de Altenberg, Alemanha, existe uma escultura chamada "Amplexus" (abraço, em latim), feita por Werner Franzen. Nela, Jesus é retratado inclinando-se para a frente da cruz, abraçando Martinho Lutero, o reformador protestante alemão, e Bernardo de Claraval, o famoso abade católico francês conhecido  por combater os hereges. Segundo Jürgen Moltmann, a mensagem transmitida pelo artista é clara: debaixo da cruz de Cristo, as divisões denominacionais do cristianismo acabam.

Nós, protestantes, por diversas razões, temos uma atitude um tanto quanto fechada e partidária quando afirmamos quem são ou não nossos irmãos. Isso não nos ajuda a compreender a amplitude da igreja invisível. Precisamos lembrar que a igreja não começou com Calvino, nem com Westminster ou Dort. Talvez não seja necessário levantar as armas logo que ouvimos a palavra ecumenismo cristão. Afinal, o protestantismo sempre falou que a igreja invisível é invisível justamente porque não pode ser vista por meio de coisas externas.

Santo Agostinho acreditava que o batismo perdoava pecados, era alegorista na sua interpretação bíblica, falava favoravelmente sobre a oração aos mortos e, com seu misticismo cristão, não era nem um pouquinho cessacionista. No final das contas, era mais católico do que protestante. No entanto, para muitos protestantes, principalmente reformados, Agostinho é tido como um exemplo de Cristão. Por que aceitamos Agostinho, mesmo com as coisas que não concordamos, e não podemos enxergar os católicos através de uma perspectiva mais ecumênica? Talvez pudéssemos olhar para eles como irmãos que não têm uma teologia exatamente como a nossa, sabendo que isso não os impede de serem cristãos verdadeiros. Afinal, a salvação é somente pela fé em Cristo ou também pela exatidão teológica? Se for pela fé, não pode ser pela teologia exata. Se for pela exatidão teológica, não pode ser somente pela fé, e qualquer pessoa que acredita em uma doutrina errada estará fadada à condenação eterna. Falamos que a inexatidão teológica dos pentecostais não os impede de serem cristãos verdadeiros, ao mesmo tempo em que afirmamos que a inexatidão teológica dos católicos torna-os incrédulos. Parece que estamos usando dois pesos e duas medidas.

A unidade ecumênica das várias igrejas cristãs pode se tornar algo menos doloroso quando a busca por união parte do passado em comum de todas as tradições. A busca por unidade não deve começar pelas diferenças do presente, mas pelas semelhanças do passado. Só depois disso é que nos movemos para as ramificações das várias tradições ao longo da história. Trata-se de uma visão em retrospectiva, retraçar a história de cada tradição e chegar a um ponto de partida em comum. Quando cada tradição traça o caminho de volta para as suas origens, encontra, nessa origem, a revelação de Deus em Jesus Cristo, que é algo em comum para todas as tradições. Quanto mais nos aproximamos de Cristo, mais nos aproximamos uns dos outros.

As diferenças teológicas existem, e não creio que possam ser conciliadas de modo a desfazer o cisma de 1517. Não precisamos largar nossas convicções teológicas em nome do relativismo. Contudo, apesar de nossas convicções e diferenças, podemos entender que a obra de Cristo é muito mais abrangente do que imaginamos. Se olharmos para as nossas origens, veremos que todos cremos em Cristo, mesmo com diferentes interpretações de como a obra vicária é aplicada aos pecadores. Se percebermos que estamos, sob a mesma cruz, sendo abraçados por Cristo, talvez possamos abaixar as armas teológicas e nos reconhecer mutuamente como cristãos.

23/08/2018

Em Direção a um Futuro Ecumênico


Em sua autobiografia, após compartilhar algumas experiências frustradas com o movimento ecumênico, Jürgen Moltmann afirma: "O resultado da minha participação ecumênica, como confesso de bom grado, é o seguinte: a minha origem é reformada - o meu futuro é ecumênico." O ecumenismo, neste caso, é um ecumenismo cristão. A ideia por trás dessa afirmação de Moltmann é que todas as tradições cristãs têm um fundamento, um ponto de partida em comum. Se todas as igrejas olharem para esse fundamento, a revelação de Deus em Jesus Cristo, poderá haver unidade, apesar das diferenças.

A minha origem é reformada, ou seja, eu sou reformado, participo dessa tradição. Contudo, o meu futuro é ecumênico, isto é, no futuro, no novo céu e nova terra, no eschaton, todos nós seremos salvos; todos os cristãos serão salvos, independentemente da tradição. Com esse futuro ecumênico, podemos enxergar o presente de maneira diferente.

No futuro escatológico da salvação, na Nova Jerusalém, não existirão apenas protestantes, muito menos somente reformados. É por isso que nosso futuro é ecumênico, pois, nesse futuro, serão salvos cristãos de todas as tradições. A minha  origem é reformada, eu interpreto a Bíblia de acordo com a minha tradição, mas meu futuro é ecumênico porque entendo que a salvação não é algo exclusivo dos cristãos que compartilham as mesmas visões teológicas que eu tenho. As diferenças teológicas entre as tradições não podem anular a soberania de Deus na eleição.

Como, então, essa visão de ecumenismo futuro pode influenciar o nosso presente na convivência com outras tradições? Se entendermos que não somos os únicos cristãos, se compreendermos que nem todo reformado é um cristão verdadeiro e que nem todo cristão verdadeiro é um reformado, se tivermos a humildade de admitir que a nossa tradição não será a única a estar com o Senhor, se percebermos que, apesar da divisão das igrejas, o corpo de Cristo não está dividido, então conseguiremos, hoje, com essa perspectiva de futuro, viver em comunhão com cristãos de outras tradições.

28/07/2018

A Teologia de Karl Barth


Karl Barth nasceu em 10 de maio de 1886, em uma família burguesa de Basel, Suíça. Seu pai era professor de teologia, especialista no Novo Testamento.

Barth estudou em Berna, Berlin e Marburg, recebendo a influência de Adolf von Harnack e da teologia liberal. Pastor de 1911 a 1921 em Safenwil, uma pequena vila suíça, fez parte, durante um primeiro período, da corrente do assim chamado socialismo religioso. Em 1921, foi nomeado professor de teologia reformada na faculdade de Göttingen devido ao sucesso obtido pelo seu comentário à Epístola de Paulo aos Romanos.

Ensinou em Münster e, em seguida, em Bonn, até 1935, quando foi expulso da Alemanha pelo regime nazista. Daí em diante, até 1964, ensinou em Basel, morrendo em 10 de dezembro de 1968. Barth é um dos (poucos) teólogos que desenvolveram um pensamento articulado e complexo, dividido em várias fases. Em uma primeira fase, os seus mestres foram os teólogos liberais Hermann e Von Harnack; sua leitura preferida eram as obras de Schleiermacher e Kant.

Em 1909, iniciando a sua atividade pastoral, entrou em contato com a questão operária, viu a pobreza material e cultural dos seus paroquianos e se convenceu de que a teologia liberal que havia aprendido na universidade estava distante da condição existencial dos fiéis. Além disso, a eclosão da Primeira Guerra Mundial fez com que Barth se distanciasse de seus mestres alemães que haviam declarado apoio à guerra. Para ele, a mensagem cristã e Jesus Cristo só poderiam ser compreendidos fora dos esquemas históricos.

A fé é um dom da graça, um encontro não dedutível entre o homem e Deus, um salto abissal que não se pode explicar com as categorias filosóficas; ela se situa fora do tempo e da história. As influências de Dostoiévski e Kierkegaard trouxeram Barth aos temas e à sensibilidade do existencialismo, com os quais, no entanto, ele não se identificava: para Barth, a centralidade está em Deus e não no homem e na sua existência.

O resultado maduro dessa primeira fase do pensamento de Barth é ‘A Epístola aos Romanos’ (Der Romerbrief), de 1922 (uma primeira edição, que foi completamente revisada posteriormente, havia sido publicada em 1919), que é o manifesto da assim chamada ‘teologia dialética’. Para Barth, a tarefa da teologia é evidenciar a relação ‘dialética’, de ‘ruptura’, entre Deus e o mundo (o homem, a cultura, a história), ao contrário da teologia liberal, que apoiava uma continuidade entre Deus e o homem, considerando a fé como um elemento da interioridade psicológica do homem e a teologia como a análise histórico-crítica da Escritura.

Segundo Barth, a Revelação de Deus é ‘crise’ do mundo. A Cruz de Cristo torna visível a distância infinita que existe entre Deus e o homem. Enquanto o Deus da teologia tradicional é o cume daquilo que é bom, belo e verdadeiro no mundo, o Deus de Barth é aquele da ruptura e da contradição. Contra uma visão que reduz o cristianismo à categoria do saber histórico e científico, concebendo-o como a máxima expressão do gênio religioso da humanidade, o teólogo suíço afirma que o conteúdo da Bíblia não se constitui de pensamentos corretos dos homens sobre Deus, mas de pensamentos corretos de Deus sobre os homens.

Na Bíblia, não é dito como nós devemos falar com Deus, mas o que ele diz a nós, não como nós encontramos o caminho para alcançar a Ele, mas como Ele buscou e encontrou o caminho nos para alcançar. Na segunda fase, Barth ameniza o tom e descreve a relação entre a fé e a razão não mais de modo contrastante, mas busca conciliar os dois termos.

A fé mantém a sua primazia absoluta, ela é dom de Deus, proveniente da graça e não dedutível pela história e pela psicologia. Todavia, o intelecto não é impedido de desenvolver o seu papel: dentro da fé, cabe ao intelecto buscar entender e compreender. Barth vê esse cenário em Anselmo de Cantuária e no seu ‘Proslogion’. Nessa fase do pensamento, Deus e o homem, fé e razão, eternidade e tempo, estão em uma relação de maior colaboração.

A partir, por fim, dos anos trinta, o pensamento de Barth sofre um desenvolvimento ainda maior, testemunhado pela ‘Dogmática Eclesiástica’ (Kirchliche Dogmatik), obra inacabada, de 13 volumes, que mantém o teólogo ocupado por outros 30 anos. Para Barth, o coração da mensagem cristã é a ressurreição, a salvação, a eleição, a graça e não a condenação, a transcendência, a ira de Deus que rejeita o homem e o mundo.

O relacionamento entre a transcendência de Deus e o encontro com o homem, que na primeira obra era mais desequilibrado a favor do primeiro elemento, se reverte a favor do segundo elemento, sem perder nada; Deus permanece sempre uma realidade transcendente ao homem e jamais é possuído. Além disso, o pilar ao redor do qual deve girar toda a teologia é Cristo, a humanidade de Deus, o lugar no qual Deus se faz homem e restitui uma dignidade ao plano humano e histórico.

Por fim, para o nosso teólogo, quando se fala de Deus em um discurso teológico, é necessário sempre, em primeiro lugar, dar espaço à Revelação que o próprio Deus deu de si mesmo, a sua Palavra, e, para fazê-lo, é necessário estar consciente do limite do pensamento humano, colocando toda ‘filosofia’ a serviço de uma maior compreensão da fé.

Uma síntese extraordinária de todo o pensamento do teólogo de Basel se encontra em um admirado Joseph Ratzinger, o qual, a respeito de Barth, escreveu:

“Karl Barth fez uma distinção, no cristianismo, entre a religião e a fé. Ele estava errado em querer separar completamente essas duas realidades, considerando positivamente a fé e negativamente a religião.

A fé sem a religião é irreal, ela implica a religião, e a fé cristã deve, pela sua natureza, viver como religião. Mas ele tinha razão em afirmar também que, entre os cristãos, a religião pode corromper-se e transformar-se em superstição; em afirmar, isto é, que a religião concreta, na qual a fé é vivida, deve ser purificada continuamente a partir da verdade que se manifesta na fé e que, por outro lado, no diálogo, faz novamente reconhecer o seu próprio mistério e a sua própria natureza infinita”.

Publicado originalmente por Korazym.org.
Escrito por Fabio Cittadini.
Traduzido por Renan Rovaris.


23/07/2018

O encontro entre Karl Barth e Billy Graham


Sem dúvidas, o maior nome da teologia do século XX é Karl Barth. Entretanto, um dos grandes homens do movimento evangélico do século passado chama-se Billy Graham. Quem acompanhou a teologia e as características de cada um deles consegue perceber as diferenças gritantes, e seria muito interessante ver como eles enxergavam um ao outro. Não sei se temos informações a respeito do que Billy Graham pensava sobre Karl Barth, mas sabemos quais foram as impressões que Barth teve de Graham quando os dois se encontraram em agosto de 1960. Eberharh Busch registrou esse encontro na sua biografia de Karl Barth. “Karl Barth: His Life from Letters and Autobiographical Texts, é a autobiografia que Karl Barth nunca escreveu. Busch reuniu citações de cartas, livros e vários textos autobiográficos escritos por Barth e os editou com mínimos comentários em uma biografia contada nas próprias palavras de Barth.” [1] Abaixo, segue a descrição que Busch escreveu sobre o encontro entre Barth e Graham e o relato das impressões que o teólogo suíço teve a respeito do grande pregador evangélico:

A mesma fronteira ficou evidente em uma conversa que Barth teve com Billy Graham em agosto de 1960. O seu filho, Markus, reuniu os dois no Valais. Entretanto, essa reunião também foi algo amigável. ‘Ele é um “companheiro alegre e simpático”, com o qual podemos falar facilmente e abertamente; temos a impressão de que ele é até mesmo capaz de ouvir, o que não é sempre o caso com tais trompetistas do evangelho.’ Duas semanas depois, Barth teve a mesma boa impressão depois de um segundo encontro com Graham, dessa vez em sua casa em Basle. Mas, ‘foi bem diferente quando fomos ouvi-lo se soltar no estádio St. Jacob naquela mesma noite e testemunhamos a sua influência sobre as massas.’ ‘Eu fiquei bastante horrorizado. Ele se comportou como um homem louco, e aquilo que apresentou certamente não era o evangelho.’ ‘Era o evangelho com uma arma apontada na cabeça... Ele pregou a lei, não uma mensagem para deixar alguém feliz. Ele queria aterrorizar as pessoas. Ameaças – elas sempre causam um grande efeito. As pessoas prefeririam muito mais estar aterrorizadas do que contentes. Quanto mais alguém aquece o inferno para elas, mais elas vêm correndo.’ Mas nem mesmo tal sucesso justificou tal pregação. Era algo ilegítimo transformar o evangelho em lei ou ‘”empurrá-lo” como um item à venda... Devemos deixar a boa liberdade de Deus fazer o seu próprio trabalho.’ [2]

Fontes:
[2] Busch, Eberhard. Karl Barth: His Life from Letters and Autobiographical Texts. Philadelphia: Fortress, 1976. 446.

21/07/2018

Os Últimos Dias Começaram (Jürgen Moltmann)


Por que muitos americanos leem a Bíblia como um Calendário Codificado da História do Mundo?

Por Jürgen Moltmann

Um voo regular de um Boeing 747 sobre o Atlântico está a caminho de Londres. O avião está completamente cheio. De repente, a aeromoça vai até o capitão na cabine. Com os joelhos tremendo e a voz falha, ela anuncia: dezenas de passageiros desapareceram. Seus sapatos, meias e roupas ficaram para trás. O capitão olha em volta e encontra tudo em ordem na primeira classe, enquanto uma mulher da segunda classe chora por seu marido desaparecido. Ele chama o aeroporto de Heathrow, mas não pode pousar lá. Incontáveis ​​aeronaves caíram porque pilotos desapareceram de repente e ninguém mais tinha o controle do tráfego aéreo. (2000, Tyndale House Publishers, Inc/www.leftbehind.com)

O piloto voa de volta para Chicago. O mesmo caos prevalece lá, mas ele recebe um espaço para pousar. A catástrofe é perfeita: aviões caídos, carros colididos, trens descarrilhados e milhares de mortos. Vemos imagens de salas de parto onde bebês desapareceram de repente do ventre de mulheres grávidas, o noivo que estava no altar perdeu sua noiva, e classes inteiras de uma escola nas Filipinas se dissolvem em nada. Quando o capitão voltou para casa, sua esposa também havia desaparecido.

O que aconteceu? Para o capitão, a questão com Deus estava, de alguma forma, bem, mas sua esposa frequentava regularmente estudos bíblicos e pertencia a um grupo de cristãos que eram nascidos de novo. Isso lhe deu uma pista. O seu pastor lhe explicou: os últimos dias começaram. Como a Bíblia profetizou, os crentes verdadeiros serão "arrebatados" nas nuvens com Cristo, enquanto os horrores do fim do mundo virão sobre os incrédulos deixados para trás. Os últimos dias começam com o grande arrebatamento dos crentes, e os incrédulos participam, durante sete anos, da grande tribulação, com pragas, terremotos, tornados, enchentes e o terror do Anticristo no “sinal da besta”. No entanto, Cristo voltará, matará o Anticristo e estabelecerá o seu Reino de mil anos, onde os crentes governarão com ele enquanto os incrédulos são destruídos.

É Marcada a Hora

Obviamente, isso é uma ficção, mas os leitores são pessoas reais. Desde 1995, a série Left Behind [Deixados Para Trás] (também transformada em filme), dos professores de escola dominical Tim LaHaye e Jerry Jenkins, que começa com essa história, apareceu nos Estados Unidos na forma de romance, com mais de 40 milhões de cópias vendidas. Para o volume dez, "Os Remanescentes", houveram 2,5 milhões cópias compradas antecipadamente este ano [N.T.: 2002]. Somente metade dos leitores são cristãos evangélicos. As vendas subiram 60 por cento após os ataques de 11 de setembro. Pessoas seculares também perguntam: o fim do mundo está chegando? Muitos amam a desgraça e a melancolia no mundo dos detetives e da ficção científica. "Beam me up, Scotty"* é, sem dúvida, a maneira mais aceita de lidar com o mal. [*N.T.: Expressão idiomática da língua inglesa retirada da série Star Trek e usada para dizer que uma pessoa toparia qualquer coisa que lhe fosse oferecida.]

Em 1970, aconteceu um apocalipse fictício semelhante no livro de Hal Lindsay, The Late Great Planet Earth [A Agonia do Planeta Terra], que também obteve edições na casa dos milhões. Naquela época, o Armagedom, a batalha final entre Deus e o diabo, Cristo e o Anticristo, o bem aqui e o reino do mal lá naquele vale, foram salientados. Com bombas nucleares ou de hidrogênio, o Exército Vermelho da União Soviética anticristã seria destruído primeiro e, depois, seria a vez do exército do Povo China que não tinha Deus. Lindsay serviu Ronald Reagan como conselheiro sobre o Oriente Médio e Israel, e convenceu o presidente a respeito de um inevitável "Armagedom em nossa geração". Felizmente, Michail Gorbatchev veio com sua política de paz. Parece que o cenário apocalíptico sempre será atraente, visto que as pessoas seculares não entendem mais o mundo depois do terror de 11 de setembro. De acordo com a Time/CNN, 59% dos americanos temem que as profecias apocalípticas da Bíblia estejam se tornando realidade, e 25% até mesmo acredita que a Bíblia profetizou o ataque terrorista ocorrido em Nova Iorque.

Qual é a origem do típico encanto americano com o fim do mundo? Isso está fundamentado teologicamente desde 1860 no dispensacionalismo do evangelista inglês John Nelson Darby, e se tornou popular através da Bíblia de Referência Scofield, de 1909. Aqui, a Bíblia não é lida como um testemunho de fé, mas como um calendário divino codificado para a história do mundo. O número 666, por exemplo, se torna a chave da história do mundo. Essa leitura da Bíblia é chamada de "Biblicismo", uma conquista do início da era do Iluminismo. Assim como Newton desmistificou a natureza através da descoberta de leis naturais, os primeiros "intérpretes bíblicos proféticos" queriam enxergar através dos mistérios da história, através do conhecimento do fim planejado da história. A ideia básica é simples: assim como Deus criou o mundo em sete dias, a história do mundo, chamada de dispensação, terá sete eras. Com a aparição de Cristo, entramos na sexta era, a era cristã. Hoje, a sétima e última era do mundo se aproxima. A profecia bíblica precisa ser profecia histórica. A profecia sobre os últimos dias está no Apocalipse. Portanto, o Apocalipse de João é o livro mais importante da Bíblia.

Também existem interpretações do Apocalipse feitas por Sir Isaac Newton. O seu mundo-máquina era, em última instância, um mundo-relógio. Através do estado ou condição do mundo, devemos entender qual é a hora que está sendo marcada. Na era de euforia geral com o progresso, a perspectiva apocalíptica para os iminentes horrores do fim dos tempos ganhou importância na reação fundamentalista contra o modernismo e o liberalismo do mundo protestante. Essa perspectiva advém da mesma raiz da era do Iluminismo, a qual procurou transformar a fé em conhecimento.

Arrebatamento Piedoso

Esse cenário do fim dos tempos não se origina com Cristo, já que "a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai" (Marcos 13:32). O “arrebatamento” dos crentes, a respeito do qual Paulo fala em 1 Tessalonicenses 4:17, não é um escapismo para zombar daqueles deixados para trás, mas sim uma imagem na qual os habitantes de uma cidade vão encontrar seu rei para encaminharem-no até a sua cidade. Nada aponta para os horrores daqueles que ficaram para trás. O futuro de Cristo acontece na terra, não no céu. Assim, seria melhor se os crentes permanecessem fiéis para com a terra, mesmo nas catástrofes, e não fugissem para o mundo vindouro. Em contraste, o sonho piedoso do arrebatamento contém uma resignação que abandona esta terra à destruição. Qualquer pessoa que, em sua fé, "deixa os outros para trás", abandona-os. Isso não pode ser uma bendita esperança ou uma expressão de amor. Um Deus que apenas aguarda para "arrebatar" tripulantes cristãos de suas aeronaves para que o avião caia e milhares de pessoas sejam mortas não pode ser um Deus no qual alguém possa confiar. Na verdade, isso é o ídolo perverso de um desprezo patológico contra o mundo.

Tais ideias sempre existiram em círculos sectários, mas transformaram-se num fenômeno de massas na América contemporânea. Mais e mais americanos leem e falam sobre o fim do mundo, ao mesmo tempo em que esse assunto deixa o europeu bastante frio. Por quê? Uma terra que justifica seu destino desde o princípio na providência divina tem uma fraqueza natural pelos profetas. Uma nação que queria construir um “novo mundo” contra um “velho mundo” está inclinada a pensar em categorias de batalha dualistas: aqui o bem, lá o mal; e “quem não é por nós é contra nós”. No século XIX, a crença no progresso mobilizou a ascensão da América. Entretanto, três movimentos apocalípticos dos “últimos dias” levantaram-se também: as Testemunhas de Jeová, os Mórmons e os Adventistas. Hoje, muitos estão cambaleando entre uma consciência de missão messiânica para o império americano e os medos do fim do mundo. Esses são os dois lados de uma mesma moeda chamada egomania. Em contraste, a fé cristã é humilde, duradoura e uma constante paixão pela vida.


Traduzido por Renan Rovaris.
Publicado originalmente por Portland IMC.

11/07/2018

Libertação e esperança: 10 citações de Jürgen Moltmann


Publicado originalmente por Christian Today. Escrito por Andy Walton. Traduzido por Renan Rovaris.

Um dos mais proeminentes teólogos do mundo, Jürgen Moltmann é um pensador alemão reformado, autor de vários livros e um dos teólogos mais importantes da nossa era. Ele começou sua vida em uma família de ateus e entrou para o Exército Alemão.

Quando, no final da Segunda Guerra Mundial, rendeu-se aos soldados britânicos, Moltmann se tornou um prisioneiro de guerra. Atormentado pelas dúvidas e pela tristeza por causa das atrocidades cometidas pelos nazistas, ele estava gravemente abatido. Mas sua vida iria mudar. Quando ganhou uma cópia do Novo Testamento de um capelão enquanto estava preso no Reino Unido, Moltmann descreveu o processo de ser encontrado por Cristo: "Jesus me encontrou quando eu tinha 18 anos de idade", disse o teólogo. "O testemunho de outros crentes e a leitura das Escrituras - especialmente os Salmos e o Evangelho de Marcos - causaram um impacto duradouro em mim e mudaram a minha vida para sempre."

A sua teologia tem focado na libertação e na esperança, e não tem causado pouca controvérsia - ele defende um certo tipo de universalismo. Mas, juntamente com sua inspiração, Karl Barth, Jürgen Moltmann permanece como um gigante da teologia do século XX (e XXI).

Abaixo, apresentamos 10 de suas mais inspiradoras e instigantes citações:

1. "A ressurreição de Cristo não é meramente uma consolação para ele em uma vida que é cheia de angústia e está fadada à morte, mas ela também é a antítese de Deus ao sofrimento e morte, à humilhação e ofensa, e à perversidade do mal." (Theology of Hope).

2. "Deus não se torna uma religião, para que o homem participe nele através da correspondência de pensamentos e sentimentos religiosos. Deus não se torna uma lei, para que o homem participe nele através da obediência a uma lei. Deus não se torna um ideal, para que o homem alcance comunhão com ele por meio de uma batalha constante. Ele humilha a si mesmo e toma sobre si mesmo a morte eterna do ímpio a do desolado, para que todos os ímpios e os desolados possam experimentar comunhão com ele." (The Crucified God).

3. "Na ressurreição e exaltação de Cristo, Deus escolheu aquele que a moral e os poderes políticos desse mundo rejeitaram - o Cristo pobre, humilhado, sofredor e desolado. Deus se identificou com ele e fez dele Senhor do novo mundo... o Deus que cria justiça para aqueles que sofrem violência, o Deus que exalta Cristo humilhado e executado - esse é o Deus de esperança para o novo mundo de retidão, justiça e paz." (Ethics of Hope).

4. "A esperança messiânica nunca foi a esperança dos vitoriosos e governantes. Ela sempre foi a esperança dos derrotados e inferiores. A esperança do pobre não é nada além do que a esperança messiânica." (The Way Of Jesus Christ).

5. "Com Cristo, em fé, uma vida totalmente nova se inicia. Não se trata de uma vida restaurada nem de uma vida rejuvenescida. Não se trata nem mesmo de uma vida renascida desde sua origem. A ressurreição de Cristo não tem nenhum protótipo histórico. Ela é algo completamente novo na história. Ela é o início de uma nova criação de todas as coisas." (The Source Of Life).

6. "A cruz não é algo historicamente acidental que poderia não ter acontecido. O próprio Deus não é outro senão o amor. Consequentemente, o Gólgota é a revelação inescapável da sua natureza em um mundo de maldade e sofrimento." (The Trinity and the Kingdom).

7. "Nós experimentamos aquilo que a vida e a morte realmente são quando amamos, pois em amor saímos de nós mesmos, nos tornamos capazes de sentir felicidade e, ao mesmo tempo, podemos ser machucados." (Sun of Righteousness, Arise! God's Future for Humanity and the Earth).

8. "Quando todas as esperanças morrem, vem uma onda do futuro como um espírito de ressurreição para dentro dos ossos mortos (Ezequiel 37), criando esperança contra a esperança." (Religion, Revolution, and the Future).

9. "Ninguém pode viver totalmente sem esperança. Viver sem esperança é parar de viver. O inferno é desesperança. Não é por acaso que, sobre a entrada do inferno de Dante, estão as palavras: 'Deixai para trás toda a esperança, vós que entrais.'" (Theology of Hope).

10. "O Deus da liberdade, o Deus verdadeiro, não... é reconhecido pelo seu poder e glória na história do mundo, mas por meio da sua desesperança e da sua morte no escândalo da cruz de Jesus." (The Crucified God).

06/11/2017

A Arquitetura da Igreja Antiga

Artigo retirado do Dictionary of Late New Testament & Its Developments, InterVarsity Press, Editores: Ralph P. Martin e Peter H. Davids, pp. 91-95.

Tradução: Renan Rovaris

Arquitetura, Igreja Antiga

Evidências literais e não literais apontam para a residência doméstica como sendo a via para as reuniões cristãs primitivas. Esse padrão é afirmado no Livro de Atos dos Apóstolos, onde lemos que os primeiros crentes se reuniam em casas privadas, e nas cartas de Paulo, onde vemos que as novas comunidades estabelecidas pelo apóstolo eram centradas em casas. As reuniões de cristãos em casas privadas continuaram a ser a norma até as primeiras décadas do século IV, quando Constantino (Imperador Romano) começou a erguer as primeiras basílicas cristãs. Durante quase trezentos anos, os crentes se reuniram em casas, não em sinagogas ou edifícios construídos com o único propósito de reuniões religiosas.

  1. A Necessidade e Desenvolvimento de Casas-Igrejas
  2. A Casa-Igreja, 50-150
  3. Domus Ecclesiae, 150-250
  4.  Aula Ecclesiae, 250-313

1.  A Necessidade e o Desenvolvimento das Casas-Igrejas

A reunião de cristãos em Casas-Igrejas não ocorreu por acaso. Quatro razões se destacam para a escolha da casa como um local de encontro. Primeiro, os “aposentos superiores” (At 1:13) e residências domésticas estavam disponíveis imediatamente. Segundo, a estrutura doméstica oferecia um local de encontro relativamente discreto. Embora o ambiente doméstico não fosse uma garantia contra a perseguição, (veja At 8:3), nos primeiros anos, quando a perseguição era uma ameaça, os cristãos eram discretos ao fazer suas escolhas para locais de reunião. Terceiro, os judeus na Palestina e na Diáspora se reuniam em Casas-Sinagogas. Visto que muitos dos crentes primitivos eram judeus e prosélitos (gentios convertidos ao judaísmo), não é difícil imaginar as comunidades cristãs adotando padrões judaicos, principalmente se levarmos em conta a similaridade que havia entre as atividades da Casa-Igreja e da Casa-Sinagoga. Quarto, a “casa” fornecia tudo o que era necessário para uma reunião cristã e, o mais importante, também oferecia as instalações necessárias para preparar, servir e tomar a Ceia do Senhor.

O período cristão primitivo de 50-313 pode ser dividido aproximadamente em três estágios de desenvolvimento. Durante o primeiro estágio (c. 50-150), os cristãos se reuniam em casas privadas que pertenciam a membros individuais, ou benfeitores, da comunidade. O nome “Casa-Igreja” é mais apropriadamente aplicado a este período. A Casa-Igreja, por definição, é uma casa, uma residência doméstica, que não teve sua arquitetura alterada para a reunião cristã e era usada pelo menos ocasionalmente pela comunidade cristã local ou por parte dela.

Durante o segundo estágio (c. 150-250), residências domésticas privadas foram renovadas para o uso exclusivo de reuniões das comunidades cristãs. Em alguns casos, essas casas reformadas haviam sido usadas anteriormente como um local de reunião pelos crentes durante períodos mais antigos. Essas alterações arquitetônicas e mudança de função são duas características da assim chamada domus ecclesiae, apropriadamente traduzido ao português por “centro da comunidade” ou “casa de reunião”.

Durante o terceiro e último período (c. 250-313), construções maiores e salões, privados e públicos, foram usados. Esses edifícios maiores precederam a arquitetura das basílicas da era de Constantino, e algumas delas podem ter funcionado como domus ecclesiae anteriormente. Tais construções tinham um formato retangular e não apresentavam nenhuma característica formal da arquitetura das basílicas posteriores.

Descobertas arqueológicas recentes permitiram a reconstrução da história da arquitetura cristã. A discussão que se segue aqui oferece os desenvolvimentos mais abrangentes da arquitetura das igrejas anteriores à era de Constantino, juntamente com alguns exemplos ilustrativos.

2. A Casa-Igreja

O Livro de Atos dos Apóstolos nos apresenta uma imagem de crentes primitivos se reunindo regularmente em casas e “aposentos superiores” (At 2:46; 5:42; cf. At 1:13, 15-16; 20:7-8). Duas possibilidades se apresentam: a comunidade primitiva alugava um aposento que era parte de uma residência doméstica (cf. P.Oxy 1129, 1036, 1038, 2190 e P. Mich. Inventory 319) ou um benfeitor cristão e proprietário de uma casa separava um aposento, ou um andar inteiro de aposentos, para o uso da comunidade primitiva.  Existem evidências do Farisaismo do Segundo Templo confirmando que salões de segundo andar e salas de jantar (triclinium) eram usados como um local de estudo e haburoth, ou reuniões da “irmandade” (e.g., M. Sabb. 1:4).

Em Atos 12:12, Pedro, tendo escapado da prisão, vai até a casa de Maria, mãe de João Marcos, onde muitos dos crentes estavam reunidos orando. Presumivelmente, essa era uma casa disponibilizada regularmente para a comunidade. Os detalhes incidentais sugerem que essa casa não fazia parte de uma insulae, ou complexo de “apartamentos”, mas era uma casa grande com um acesso ou portal que servia de separação entre a rua e o pátio interior e os cômodos.

Lucas não nunca mostrou toda a comunidade pós-pentecostes reunida em um local. Se nós temos que entender o número três mil como uma contagem acurada desses crentes em algum sentido, (At 2:41; cf. At 4:4; 5:14; 6-7), eles obviamente não poderiam ter se reunido debaixo de um único telhado. A própria instrução de Pedro para o grupo reunido na casa de Maria sugere a realidade de múltiplos lugares de reunião: eles deveriam comunicar a sua libertação do cárcere para Tiago e “os irmãos” (At 12:17), que estavam presumivelmente se reunindo em outro lugar.

O problema da comunidade cristã primitiva em garantir um número suficiente de casas para as suas reuniões pode encontrar a sua solução no judaísmo do mesmo período. A maioria das sinagogas eram cômodos únicos de casas. A maioria dos crentes primitivos que residiam em Jerusalém eram judeus, e o seu número incluía indivíduos que possuíam meios financeiros. É plausível que alguns desses judeus cristãos houvessem aberto suas casas anteriormente (ou parte delas) para a comunidade da sinagoga. Teria sido natural para esses patronos, tendo agora se tornado seguidores de Jesus, usar as mesmas instalações como um lugar de reunião para a comunidade cristã.

Arqueólogos descobriram ruínas de residências domésticas em Jerusalém que nos permitem ter um relance das condições sob as quais esses cristãos primitivos podem ter se reunido. Escavações em uma área a oeste da cidade (Cidade Alta) revelaram um distrito residencial que incluía algumas casas bastante grandes. As unidades de habitação individuais eram extensas, com pátios interiores, característica de vilas luxuosas construídas no estilo do período helenístico-romano. Esse era o local onde viviam as famílias nobres de Jerusalém.

A assim chamada Mansão Palacial é um exemplo de residência ostentosa que poderia facilmente ter acomodado os tipos de atividades descritas em Atos. A casa media mais de 600 m² e incluía um andar superior para habitação e um porão para instalações de água (piscinas, banhos e cisternas). A estrutura provavelmente incluía um segundo andar, um nível formado por quartos, mas a destruição de Jerusalém no ano 70 tornou a reconstrução desse andar impossível.

Os numerosos cômodos dessa espaçosa mansão eram agrupados ao redor de um pátio. Os afrescos ornamentados encontrados em muitos cômodos testificam a forte influência helenista, como também pode ser observado em Pompéia. Duas características proeminentes são dignas de nota: primeiro, o grande salão de recepção medindo 6,5 metros de largura e 11 metros de comprimento (71,5 m²). O acesso vindo do pátio era através de uma sala de separação por meio da qual outras áreas também podiam ser acessadas. Nossa estimativa é de que esse salão de recepção poderia ter acomodado setenta e cinco pessoas. O acesso para outros três cômodos menores era feito somente através desse salão. Os afrescos ornamentados (colunas Jônicas contendo um friso Dórico esquematizado) nesses cômodos sugerem um caráter público. Tomando como um todo, o salão e os cômodos adjacentes teriam acomodado muito confortavelmente cerca de cem pessoas.

A segunda característica são as instalações de água no andar inferior. Juntamente com um pequeno e lindo banheiro decorado, havia dois banheiros maiores para a realização de rituais, cada um com uma entrada dupla. N. Avigad sugere que a ênfase na purificação ritualística nesse domicílio beira um “culto de imersão.”

Atos fala sobre um número significativo de sacerdotes que creram na pregação dos apóstolos (At 6:7). Embora Atos não faça uma correlação entre esses sacerdotes e as reuniões domésticas, nós encontramos um padrão consistente de convertidos que poderiam ter sido benfeitores significativos, incluindo a provisão de casas para a comunidade se reunir. Instalações com água como aquelas na Mansão Palacial poderiam ter sido aproveitadas para batismos cristãos.

Vários  textos em Atos (do capítulo 13 ao 18) e nas epístolas paulinas fazem referência a residências privadas que eram usadas como lugares para os cristãos reunirem-se e que eram onde o apóstolo encontrava hospitalidade em suas viagens (veja 1 Co 16:19; Cl 4:15; Fl 2; Rm 16:5).

Na narrativa seletiva que Lucas faz das missões de Paulo e do estabelecimento de igrejas pelo Império Romano, encontramos Paulo convertendo consistentemente proprietários capazes de ser benfeitores, incluindo o oferecimento de uma casa para a reunião dos cristãos (e.g. Lídia, At 16, e Tito, o Justo, At 18). Isso era importante porque o domicílio predominante em áreas urbanas era a insula, ou um complexo de apartamentos: somente 3% da população viviam em um domus, ou casa.  O número desproporcional de insulae é provavelmente uma evidência do alto custo de moradia. Ter uma casa e propriedade era um dos indicadores principais de riqueza e status. Assim, a conversão de uma família ou chefe de família era um meio estratégico de estabelecer um novo culto em um ambiente desconhecido, e a família permaneceria como a base mais forte para as reuniões dos cristãos.  

É razoável assumir que, em Corinto, por exemplo, Áquila e Priscila teriam aberto a sua casa para a comunidade cristã. Quando se mudam para Éfeso com Paulo (At 18:18), eles estão com uma “igreja em sua casa” (1 Co 16:19 e também algumas testemunhas apócrifas), e quando mais tarde restabelecem sua residência em Roma (At 18:1-2), novamente eles têm uma “igreja em sua casa” (Rm 16:3-5).

Visto que as Casas-Igrejas não demandavam alterações arquitetônicas, seus restos arqueológicos são indetectáveis, a menos que elas fossem posteriormente incorporadas a uma domus ecclesiae e/ou uma aula ecclesiae. Em Corinto, as escavações das ruínas da vila romana nas imediações do Portão de Sicião (Sicyonian Gate), a casa nas mediações do Templo E e a suntuosa vila em Anaploga são exemplos de residências nas quais a comunidade primitiva teria se reunido.

3. Domus Ecclesiae, 150-250

A mudança radical na posição social e na composição das comunidades cristãs demandou mudanças nos locais de reunião. Mais precisamente, comunidades mais pobres continuaram a se reunir em residências domésticas, mas em muitas áreas os cristãos começaram a adquirir propriedade, talvez por meio de procurações através de um membro ou do bispo.

3.1. Cafarnaum, Galiléia. As escavações arqueológicas em Cafarnaum sugerem que a antiga casa de Pedro foi transformada posteriormente em uma domus ecclesiae e pode ser a evidência mais antiga do que foi originalmente uma Casa-Igreja. Diferente das ruínas em Dura-Europos, as ruínas em Cafarnaum não permitem uma reconstrução perfeita do edifício original e de sua história de desenvolvimento estrutural porque uma igreja bizantina octogonal do século V foi construída no mesmo local e porque a subsequente invasão persa de 614 resultou no fim do domínio cristão bizantino e na demolição dos locais cristãos. Entretanto, com o renovado interesse na Galiléia e com detalhados relatórios arqueológicos, uma reconstrução satisfatória é possível.

Debaixo da igreja bizantina octogonal estão os restos de duas construções mais antigas. Os restos mais antigos testificam sobre uma insula comum, ou construções acopladas, que eram habitações domésticas próprias da pequena comunidade de pescadores de Cafarnaum. Dentro desse complexo, datando do primeiro século d.C., há um grande salão (7x6.5 m = c. 45.5 m²) que foi venerado por cristãos como sendo a casa de Pedro. Este salão provavelmente foi usado pela comunidade local de cristãos judeus enquanto outros cômodos da insula continuaram a funcionar como parte da residência doméstica.  Essa adaptação parcial da casa, com os cômodos circundantes continuando a fazer parte da vida do dia a dia, continuou até o período romano tardio, quando a comunidade aumentou a antiga casa adicionando ao salão um átrio ao leste e dependências ao norte e fechando toda a pequena insula da casa de Pedro dentro de um recinto sagrado para servir às necessidades da comunidade e dos peregrinos. Subsequentemente, esse complexo inteiro foi suplantado pela igreja octogonal do século V.

3.2. Dura-Europos, Síria. A evidência de Dura-Europos, uma cidade de guarnição do século III na Síria, provê o testemunho arqueológico mais convincente de uma domus ecclesiae cristã. De forma conservadora, estima-se que a casa privada foi construída em 232/33 e renovada (de uma só vez) em cerca de 240/41. Embora seja um pouco maior do que a maioria das habitações privadas em Dura, a sua aparência exterior não teria sugerido algo além de uma habitação privada.

Os restos foram descobertos em um estado de conservação relativamente bom em 1931, e o edifício cristão foi escavado de 1932 a 1933. A boa qualidade das ruínas se deve ao fato de que Dura foi destruída em 236 pelos Sassânidas e não foi mais repovoada.

Quando a casa foi reformada pelos cristãos, três mudanças maiores foram introduzidas. Primeiro, a parede dividindo o divã e o cômodo adjacente foi removida, criando com isso um grande salão de reunião medindo 12.9 x 5.15 m (c. 66.5 m²). À ponta leste do cômodo, havia uma pequena plataforma, ou estrado (trono), que provavelmente foi usado durante a leitura e o ensino. Um cômodo menor foi transformado em um batistério. Essa parece ser a evidência mais antiga de uma adaptação estrutural com o propósito de construir uma fonte batismal. Uma marquise também foi instalada, e as paredes foram decoradas com afrescos. O pátio central foi coberto com azulejos (mosaicos) e bancos (50 cm de comprimento e 42 cm de altura) foram construídos ao redor das paredes. Todas essas renovações sugerem uma comunidade cristã desenvolvida e organizada. É difícil determinar, porém, se os jantares comunais eram realizados nesta domus ecclesiae em particular.

Dentre as razões para a transição da Casa-Igreja para a domus ecclesiae estão o tamanho da comunidade e a diversidade das atividades. Em meados do ano 250, por exemplo, os crentes em Roma eram cerca de três mil. Tal crescimento tornou necessária a remodelação de estruturas existentes. A necessidade de acomodar atividades diversas deixou sua marca nas características arquitetônicas. Por exemplo, a separação da Eucaristia da Festa do Amor (Jantar Ágape) significava que um local para jantar e para cozinhar não era mais necessário. Ao invés disso, um local formal foi implementado (incluindo um “trono”, Didascalia Apostolorum 12) com a comunidade virada para o estrado, ou trono. Uma distinção foi feita entre os catecúmenos e os membros, e características particulares, como as fontes batismais, foram adicionadas. Deste modo, foi realizada a transição da Casa-Igreja para a domus ecclesiae.

4. Aula Ecclesiae, 250-313

Certas ruínas preservadas debaixo de algumas igrejas em Roma mostram antigas estruturas usadas por comunidades cristãs. Muitas dessas antigas tituli (um termo legal relacionado ao estabelecimento de propriedade, ou título) de Roma se tornaram locais de basílicas, preservando uma tradição de um “local sagrado” (loca sancta). A Basílica S. Crisogono (Titulus Chrysogoni) é um exemplo incontestável de uma aula ecclesiae em Roma. Ela está localizada na antiga Via Aurelia, e a basílica foi construída através da incorporação de um grande salão retangular preexistente (29.5 x 15.25 m). Esse salão em particular data do início do século IV (c. 310).

Essa estrutura pré-Constantiniana foi usada como uma construção da igreja, mas o salão não era reconhecido como tal. Ele era um tipo comum de salão de reuniões romano encontrado em construções administrativas e outras. As únicas indicações que podem ser reconhecidas do seu uso pelos cristãos são o anteparo para o coro e cômodos laterais que poderiam ter sido reservados para os catecúmenos.  

Embora o uso da domus ecclasiae tenha continuado até o século IV, no início desse mesmo século, os cristãos começaram a usar construções públicas como locais de reunião. Essa mudança acompanhou o colapso das perseguições periódicas (e.g., Diocleciano em 303-5) e o reconhecimento do cristianismo por Constantino, o que culminou no Édito de Milão em 313.

07/07/2017

"Alegria é a forma mais simples de gratidão": 12 citações de Karl Barth, o teólogo legendário

Publicado originalmente em Christian Today por Joseph Hartropp.

Karl Barth, pastor suíço, pensador enigmático e indiscutivelmente o maior teólogo do século XX, foi um escritor prolífico. Sua teologia se ergueu como um desafio para a teologia liberal do século XIX, predominante em seus dias. Enquanto alguns desejavam reformar a teologia através da luz dos avanços intelectuais do pós-iluminismo, Barth enfatizou a total dependência da humanidade na revelação de Deus -- apreendida em última instancia na pessoa de Jesus Cristo -- para o conhecimento de Deus e da realidade.

A aversão de Barth à "religião" humana -- a qual ele viu como uma tentativa de se "apossar" de Deus -- foi vindicada pelo suporte das igrejas alemãs aos objetivos de guerra da Alemanha em 1914. Na rendição aos planos do Kaiser, Barth viu os perigos de uma igreja que não tem distinção da cultura humana ao redor dela.

Na Segunda Guerra Mundial, Barth fez parte da Igreja Confessante, que resistiu fortemente contra o fantasma do Nazismo.

A sua obra icônica e volumosa, Church Dogmatics [ainda sem tradução ao português], demonstra o seu grandioso intelecto, mas ele também tinha um coração pastoral e uma mensagem simples no centro de sua teologia. Certa vez, depois de uma palestra em Chicago, perguntaram a Barth se ele poderia resumir a sua teologia em apenas uma frase. Ele respondeu com a letra de uma música que a sua mãe havia lhe ensinado: "Jesus Cristo me ama, disso eu sei, porque assim a Bíblia me diz."

Abaixo seguem 12 citações de Karl Barth que são muito interessantes:

1. Ninguém pode ser salvo -- em virtude do que alguém pode fazer. Todo mundo pode ser salvo -- em virtude do que Deus pode fazer.

2. Juntar as mãos em oração é o início de uma insurreição contra a desordem do mundo.

3. O riso é a coisa mais próxima da graça de Deus.

4. Isto é certo: nós não temos nenhum direito teológico de colocar qualquer tipo de limite à bondade amorosa de Deus que apareceu em Jesus Cristo. Nosso dever teológico é ver e entender isso como sendo ainda maior do que havíamos visto anteriormente.

5. O teólogo que trabalha sem alegria não é um teólogo de maneira nenhuma. Caras carrancudas, pensamentos sombrios e formas tediosas de falar são intoleráveis nesse ramo.

6. Como ministros, nós devemos falar de Deus. Mas somos humanos e, portanto, não podemos falar de Deus. Devemos, então, reconhecer nossa obrigação e inabilidade e, através desse reconhecimento, dar glória a Deus.

7. Alegria é a forma mais simples de gratidão.

8. A Comunhão é oferecida a todos, tão certamente quanto Jesus Cristo -- o qual vive -- é para todos; tão certamente como todos nós não somos divididos nele, mas pertencemos juntos como irmãos e irmãs. Todos nós, pobres pecadores; todos nós, ricos por meio de sua misericórdia. Amém.

9. Aqui, o Deus escondido, eterno e incompreensível, tomou forma visível. Aqui, o Todo Poderoso é poderoso em um acontecimento muito definido, particular e terreno. Aqui, o criador se tornou criatura e, portanto, realidade objetiva.

10. Céus e terra, natureza e homem, comédia e tragédia,[...] a Virgem Maria e os demônios [...]. Mozart simplesmente contém e inclui tudo isso dentro de sua música, em perfeita harmonia. Essa harmonia não é uma questão de "balanço" ou "indiferença" -- é uma gloriosa perturbação do balanço, um giro no qual a luz se levanta e as sombras caem, no qual o Sim soa mais alto do que o sempre presente.

11. Qualquer um que tenha brigado com a descrença deveria ser avisado de que ele não deveria levar a sua descrença tão a sério.

12. Quando esgotamos a nossa inteligência em busca de uma resposta, então o Espírito Santo pode nos dar uma resposta. Mas como Ele pode nos dar uma resposta quando ainda estamos muito bem supridos com todo tipo de respostas que produzimos?

30/06/2017

Karl Barth, Hitler, Nazismo e Liberdade

Karl Barth, teólogo suíço e um dos principais nomes da teologia do século XX, lutou contra o nazismo durante os dias do Terceiro Reich.

Na Alemanha nazista, a igreja cristã se dividiu entre os apoiadores do regime (Cristãos Alemães) e os opositores (Igreja Confessante). Barth foi um dos principais expoentes da luta contra o nazismo nas igrejas.

 "Entre 1933 e 1934, Barth envolveu-se no movimento de resistência à presença do nacional socialismo dentro das igrejas luterana e reformada. Dessa resistência, originou-se a Igreja Confessante (Die bekennende Kirche), apoiada por Dietrich Bonhoeffer, Hermann Hesse e Martin Nieöller, que em 4 de janeiro de 1934 reuniu-se como concílio livre das comunidades luteranas-reformadas em Barmen, o que deu início à "Disputa pela Igreja" (Kirchenkampf). Um concílio confessante ocorreu em 31 de maio desse mesmo ano, em que foi aprovada a Declaração Teológica (Declaração de Barmen).

Por não querer começar suas aulas com a saudação nazista, mas persistir em começá-las com uma oração, Barth foi suspenso como professor universitário, sendo expulso da Alemanha, em 1935. Passou, então, a lecionar na Universidade de Basiléia, na Suíça. Após o fim da Segunda Guerra, Barth engajou-se em polemicas sobre o batismo, hermenêutica e o programa de "desmitologização" (ou melhor, a "interpretação existencial" de Bultmann, em que divisava um retorno à teologia liberal do século XIX). Ele também participou da assembléia de fundação do Conselho Mundial de Igrejas, em Amsterdã, Holanda, realizado entre 28 de agosto e 4 de setembro de 1948." (Franklin Ferreira, Karl Barth: Uma Introdução à Sua Carreira e aos Principais Temas de sua Teologia, Revista Fides Reformata, VIII. Nº 1, (2003): 29-62).

Abaixo, apresento a transcrição de uma entrevista feita com Karl Barth pouco antes de sua morte. A entrevista foi retirada de um documentário chamado "JA und NEIN, Karl Barth zum Gedaechtnis" (1967), dirigido por Heinz Knorr, Calwer Verlag. Os vídeos foram disponibilizados por The Center For Barth Studies.

O Sínodo de Barmen

Essa é uma questão difícil e um pouco triste. O sínodo foi composto não somente de luteranos, reformados e membros da União de Igrejas da Prússia, mas também de pessoas com opiniões bem diferentes sobre o Nacional Socialismo. Mesmo em Barmen, existiam pessoas que aprovavam o Nacional Socialismo como tal e outros, aos quais eu provavelmente pertencia, que rejeitavam-no mais ou menos decisivamente.

Então, aquelas seis sentenças da declaração foram escritas, mas assim que foram publicadas, aconteceu o que sempre acontece na igreja depois de tais declarações. As interpretações variavam significativamente. Infelizmente, a composição do sínodo era muito multifacetada, então não poderia ser esperado que o resultado se tornaria um alto clamor ao povo alemão, ou pelo menos para os cristãos na Alemanha. Esperamos que o resultado atingido lá não tenha sido completamente apagado, e talvez será reforçado novamente.

A Disputa pela Igreja

No começo da Disputa pela Igreja, eu sempre tentei dizer aos meus amigos: "Se nós formos firmes agora e resistirmos a esta autoproclamada revelação da história em Adolf Hitler, nós estaremos resistindo a um desenvolvimento do pensamento na igreja protestante que vem acontecendo há muitas centenas de anos (a propósito, parcialmente também na igreja católica, não é?). Vocês precisam entender que não se trata apenas da defesa dos assim chamados Cristãos, mas se trata de atrair um novo tipo de homem para a teologia e entender que o tópico da teologia, de forma abstrata, não é o homem, nem o homem em seu mais alto potencial, mas o diálogo entre Deus e o homem."

No início, foi necessário sublinhar a palavra "Deus", porque essa palavra, estranhamente, tinha se tornado indefinida. Inicialmente, isso acabou sendo mal-entendido, como se eu estivesse tentando virar a teologia de cabeça para baixo e, ao invés de considerar o homem e tratá-lo com seriedade, agora seria apenas Deus! Isso nunca foi o que eu quis dizer. Aqueles que, atenta e seriamente, estão lendo meus trabalhos anteriores, sabem que eu sempre me importei com Deus e o homem. Mas, de fato, eu tive que deixar isso mais claro, e provavelmente fiz nos primeiros anos do trabalho e da luta. Foi isso que aconteceu. Mas a Church Dogmatics, como todos sabem, é um trabalho volumoso, e não há muitas pessoas, pelo menos não entre os teólogos, que têm a coragem para ler essa obra completamente. Estranhamente, entre os assim chamados homens leigos, eu encontrei mais daqueles que haviam lido e que me entenderam corretamente e ainda entendem hoje em dia, mesmo em questões políticas.

A Igreja Confessante

Eu diria que a resposta se encontra simplesmente em um nome: Adolf Hitler. Esse homem -- sobre quem, até onde sei, Hans Bernd Gisevius, escreveu o melhor livro que eu conheço -- entendeu como colocar o povo alemão, e com ele também a igreja alemã, em um estado sonhador. E, neste sonho, o povo alemão e os cristãos alemães das igrejas evangélica e católica, sonhavam que algo como uma nova revelação de Deus havia acontecido naquilo que esse homem pensou, disse, quis e fez. E assim, a chamada "Igreja Confessante" foi basicamente um decisivo "não" a este sonho. Se tratava de um apelo: "Alemanha, desperte deste sonho!" E infelizmente, praticamente o único expoente desse despertar foi a assim chamada Igreja Confessante.

O Comentário da Carta aos Romanos

O que eu estava tentando alcançar com o comentário? Inicialmente, não um livro que eu queria publicar, mas uma coleção de manuscritos que eu lia para os meus amigos. Entretanto, aos poucos aquilo foi se tornando um livro, e assim aconteceu.

Mas se me perguntarem o que eu tentei alcançar com ele, somente posso dizer que estava procurando por camaradas, homens companheiros e cristãos companheiros, os quais, encontrando-se possivelmente na mesma confusão em que eu mesmo me encontrava, iriam se aproximar da Bíblia, do Novo Testamento e da Epístola aos Romanos de uma forma muito diferente. Eu buscava ler este texto antigo juntamente com eles, uma espécie de comunidade invisível.

Revelação

O Deus que falou a sua palavra definitiva em Jesus Cristo não é um Deus morto, como os tolos estão falando hoje em dia. Pelo contrário, esse é o Deus vivo, o qual também fala hoje. Se nós tivéssemos ouvidos para ouvir, nós o ouviríamos constantemente, porque o mundo no qual nós vivemos foi criado por ele. Se nós tivéssemos olhos para ver, nós perceberíamos a revelação muito bem não apenas na Bíblia, mas também em outros lugares.

Mas atenção! Aquilo que alguém possivelmente poderia chamar de revelação para além da Bíblia -- e faz isso alegremente -- poderia ser algo nas linhas de Hitler, não é? É aqui que erros acontecem repetidas vezes. Quando as pessoas pensam: "Ah! Agora eu entendi! [A revelação] está aqui... ali." E é por isso que essa questão provavelmente terá de permanecer assim para nós, com toda abertura, para o mundo. Para a beleza da primavera que nos cerca. E também para aquelas coisas que acontecem na história, com toda abertura, decisivamente e coletivamente, para olhar para onde Deus falou por ele mesmo inequivocamente: em Jesus Cristo, que foi o verdadeiro Deus e o verdadeiro homem. E ainda é hoje e será para sempre!

Sim e Não

Na verdade, pela minha natureza, eu não estava querendo brigar. Até 1933, trabalhei e vivi muito alegremente na minha mesa de escrever, nas minhas palestras e entre os meus alunos. E não creio que as pessoas que me ouviram naquela época me considerassem um debatedor.

Ora! Alguém que forçosamente diz "sim" também precisa dizer "não" com o mesmo vigor. Isso foi algo que fiz o tempo todo durante minha vida, já como um pastor na Suíça e também depois, quando eu vim para a Alemanha, para a grande maré do rico espírito de vida alemão. Foi isso que fiz. Eu disse "sim", mas também disse "não". Sempre tive deleite no assunto que representei, seja se o defendi um "sim" ou, do mesmo modo, com um "não". Isso sempre foi, não diria dialética, mas uma questão "dialógica". Uma conversação que havia sido realizada. Então, tenho que dizer "sim" para uma coisa e "não" para outra. Tive prazer em ser um teólogo desde o início. E tenho até hoje.

Liberdade

Bem, não queremos entrar na história da teologia agora. Não quero falar sobre -- para mencionar dois nomes, então -- Bultmann ou Kuenneth. Eu diria que a grande e decisiva "posição na linha de frente" -- hoje e em todos os tempos -- é saber se os cristãos, e então também os teólogos, entenderam algo sobre o que eu mencionei antes: a liberdade de Deus e, então, a liberdade do homem.

Eu vejo em todos os lugares o perigo da não-liberdade. Vi isso na América. E quando estava partindo, disse aos americanos que eu esperava que uma teologia da liberdade poderia também surgir na América. Foi isso que eu disse a eles! Diria o mesmo aos Suíços se tivesse a chance, e também para os alemães, se eles ainda me ouvirem. Liberdade do Deus Soberano e liberdade do homem responsável.

Mas as opiniões tendem a diferir drasticamente sobre esse assunto. E, se existem linhas de frente, -- embora nós devêssemos ser cuidadosos ao trazer analogias militares para estas questões -- então eu diria que existem, de um lado, os amigos da liberdade e, de outro lado, aqueles que são mais ou menos deliberada e maliciosamente inimigos da liberdade.

28/06/2016

A saga do Evangelho da Esposa de Jesus

Confira a timeline do que aconteceu com o Evangelho da Esposa de Jesus (EEdJ), desde a sua "descoberta" em 2012 até agora.

Setembro, 2012: Karen King anuncia a descoberta do papiro chamado de EEdJ. Imediatamente, Francis Watson e Simon Gathercole notam um relacionamento entre o EEdJ e o Evangelho de Tomé (um texto apócrifo conhecido).

Novembro, 2012: A teoria chamada de Hipótese Patchwork, de Andrew Bernhard, prova que o EEdJ foi copiado do texto interlinear do Evangelho de Tomé, disponibilizado por Grodin.

Abril, 2014: O blog Evangelical Textual Criticism revelou que um outro papiro com a mesma escrita que surgiu junto com o EEdJ foi uma fraude, questionando a autenticidade de todos os documentos relacionados.

Agosto, 2015: A Hipótese Patchwork se torna irrefutável.

Junho, 2016: Walter Fritz, um ex-aluno de egiptologia da FU-Berlin, diz ser o proprietário do EEdJ. Karen King admite que o papiro é provavelmente uma farsa. Fritz teria mentido para ela. (Fonte).

Como a pequena timeline mostra, desde a sua descoberta, o EEdJ foi recebido com cautela e suspeita por muitos estudiosos. Apesar disso, várias revista pseudo-científicas alardearam a descoberta como sendo uma prova de que a história testemunhada pelo NT não é confiável. O que estas revistas e os céticos farão agora que a farsa foi revelada? 

22/06/2016

O proprietário do fragmento de papiro conhecido como Evangelho da Esposa de Jesus

Em 2012, um fragmento de papiro surgiu misteriosamente. O pequeno pedaço de material, com o tamanho aproximado de um cartão de crédito, caiu como uma bomba no meio acadêmico voltado aos estudos do cristianismo primitivo. Neste papiro, há uma frase enigmática: "Jesus disse a eles: 'minha esposa'". O texto ficou conhecido como O Evangelho da Esposa de Jesus, e, desde então, vários estudiosos suspeitavam de fraude, mas ninguém, além da professora de Harvard Karen King, sabia quem era o dono deste artefato... até agora.

Na última quinta-feira (16), o jornalista Ariel Sabar publicou uma reportagem investigativa na revista americana The Atlantic, narrando suas descobertas dignas de uma história de Sherlock Holmes. Seguindo pistas que partiram de e-mails confidenciais disponibilizados por King, Ariel chegou ao nome de Walter Fritz, um alemão com uma história um tanto quanto bizarra. Fritz havia se envolvido com muitas coisas, inclusive sites onde vendia material pornográfico de sua esposa, que, por sua vez, escrevia textos que achava serem inspirados por Deus, e falava uma língua desconhecida durante seus atos sexuais.

Depois de negar por algumas vezes, Fritz eventualmente confessa ser o dono do papiro, e as pistas indicam que ele possuiria todas as habilidades necessárias para forjar o documento, visto que foi estudante de egiptologia e línguas antigas, inclusive uma na qual o papiro foi escrito.

Com uma história de negócios e sociedades fracassadas, Walter Fritz confessa ter sido abusado sexualmente por um padre quando criança, e demonstra um certo desapreço pelo Vaticano e o cristianismo "oficial". Walter prefere os chamados evangelhos apócrifos, os quais ele acredita terem sido escritos antes dos evangelhos canônicos e que podem conter a verdadeira história de Jesus -- algo que nenhum estudioso do Novo Testamento acredita.

Fritz em nenhum momento confessa ter falsificado o documento. Apenas diz que o conseguiu de um antigo sócio, apesar de que algumas supostas cartas misteriosas parecem ter sido forjadas para provar a procedência do papiro.

Quando Ariel finalmente se encontra com Walter, o jornalista é surpreendido com uma estranha proposta para escrever um livro sobre Maria Madalena, que contaria com a participação secreta de Fritz. "Você precisa fabricar um monte de coisas", disse Fritz ao jornalista, "você não pode apresentar apenas fatos". Tudo o que Sabar precisaria fazer, era deixar que Fritz fornecesse os detalhes.

21/06/2016

O Evangelho da Esposa de Jesus é provavelmente uma fraude, admite Karen King

A professora de Harvard, Karen L. King, que chocou o mundo devotado a estudar o cristianismo primitivo quando, em 2012, apresentou um pequeno pedaço de papiro no qual se lê "Jesus disse a eles: 'minha esposa'", agora admite que tal fragmento é possivelmente uma farsa.

Karen reconhece que o fragmento que ela batizou de "Evangelho da Esposa de Jesus" pode ter sido forjado. Tal reconhecimento veio logo após a revista Atlantic publicar uma investigação sobre a origem do pedaço de papiro.

Karen diz que "agora parece que todo o material que me foi entregue a respeito da proveniência do papiro foram invenções", e acrescenta: "a balança se inclina para a falsificação".

Há anos, críticos argumentam que erros gramaticais, similaridades com textos antigos conhecidos, etc, apontam para a conclusão de que o fragmento é uma falsificação, mas, até então, King continuava confiante em suas análises prévias.

O artigo investigativo da revista Atlantic mostrou para Karen que ela não sabia quase nada a respeito do proprietário do fragmento. King disse que "não fazia ideia de nada sobre este sujeito... ele mentiu para mim."

Karen também afirmou que ela precisaria de uma prova científica ou uma confissão para admitir definitivamente que o fragmento é uma fraude, mas concluiu que, no momento, as evidências apontam para a falsificação.

10/06/2016

Consciência canônica primitiva

Nota: a resenha a seguir foi escrita por Larry Hurtado e originalmente postada em seu blog.

Uma emergente "Consciência Canônica" primitiva?

Pesquisando para o meu atual projeto (uma análise do papiro do NT P45 como um artefato cristão primitivo), me deparei com a valente defesa de Charles Hill, afirmando que os dados factuais refletem "a presença de uma 'consciência canônica' entre os escribas cristãos do final do segundo século, pelo menos: "A Four-Gospel Canon the Second Century?  Artifact and Arti-fiction," Early Christianity 4 (2013):  310-334.

As três afirmações que Hill apresenta para desafiar são estas: (1) que os evangelhos não canônicos eram tão populares (ou até mesmo mais) do que os quatro que se tornaram canônicos, pelo menos até o começo do terceiro século; (2) que no período pré-Constantino nós não podemos distinguir manuscritos do NT de manuscritos "apócrifos"; e (3) que, portanto, categorias como "apócrifo" e "NT" ou "canônico" e "não canônico" são anacrônicas, prejudiciais e inapropriadas para este período primitivo.

Em resposta, Hill nota primeiramente que o termo "apócrifa" na verdade deriva de um termo usado pelos autores de certos escritos, como "o secreto [apócrifo] discurso de revelação que Jesus falou a Judas" (Evangelho de Judas), e muitos outros escritos. Isto é, estes textos abertamente afirmam que eles eram "apócrifos" ou secretos, escritos esotéricos. Não há indicação de que eles foram escritos para ser parte de algum cânon cristão primitivo.

Então Hill conta o número de cópias existentes de vários textos dos primeiros três séculos. Admitindo que existem notáveis variações entre estes textos (e.g., somente uma cópia do Evangelho de Marcos que pode ser confirmada), ele cita 36 manuscritos de um ou de outro dos quatro evangelhos canônicos, enquanto encontra somente 10 cópias existentes de outros evangelhos.

Hill também nota as características físicas dos vários textos, citando a preferência primitiva dos cristãos pelo codex [formato de livro], especialmente para cópias usadas como escrituras. É notável que um número de cópias de textos não canônicos ("apócrifos" e outros) são rolos, o que sugere que esses textos não foram reconhecidos como escritura. Não há cópias de nenhum dos Evangelhos canônicos em formado de rolo (nota-se, entretanto, uma cópia do Evangelho de João em um rolo reutilizado).

E quando olhamos para outras características físicas, como o tamanho do codex, uso de "nomina sacra", nós também percebemos algumas distinções interessantes. Por exemplo, algumas das nossas cópias de escritos apócrifos são miniaturas, cópias privadas que não foram feitas com a intenção de serem lidas em ambientes comunitários.

Como uma característica final, Hill cita o curioso uso de marcas que ele chama de "diplae sacrae". Tratam-se de marcas em forma de setas nas margens de alguns manuscritos (>>) que parecem sinalizar citações de outros textos citados como escritura. Hill apresenta exemplos de manuscritos pré-constantinos que fazem uso dessas marcas, e é interessante que nós temos exemplos de citações do NT que são marcadas dessa forma, sugerindo que o copista reconhecia o texto do NT como escritura.

Para aqueles realmente interessados nesta questão, eu recomendo fortemente o artigo de Hill, que é rico dados e firmemente argumentado.