O número da besta é
certamente um tópico bíblico que levanta as orelhas do público em geral, mesmo
aqueles que não se interessam tanto pelo estudo do Novo Testamento. Com músicas
escritas em sua homenagem, o assunto já faz parte até da cultura pop, e a
curiosidade está justamente em saber quem é a pessoa cujo número representa.
Durante a história, e até mesmo nos dias atuais, vários candidatos foram
apontados, dentre os mais famosos, Napoleão, Hitler, Mussolini, vários presidentes norte-americanos
e até mesmo o papa. Contudo, o Apocalipse de João, assim como qualquer outro
livro da coleção cristã que se chama Novo Testamento, precisa ser lido à luz do
seu contexto histórico e social se o objetivo do leitor for entender o que o
autor queria dizer. É claro que outros tipos de leituras são possíveis, mas, no
meu caso em particular, o interesse é sempre saber a intenção de quem escreveu.
Normalmente, as
interpretações modernas sobre quem o número representa partem do pressuposto de
que o Apocalipse de João foi escrito para os leitores atuais, e cada nova
geração da história do ocidente, provavelmente devido à natureza misteriosa do
livro, tem refletido a sua própria experiência vivencial ao ler o livro. É daí
que surgem as ideias de que a obra trata sobre a Guerra Fria ou de que a besta
é o último político mais poderoso do mundo. Contudo, como um judeu da diáspora
que viveu entre o primeiro e o segundo século da Era Comum e que estava
inserido em sua época, o visionário João não escreveu a sua revelação pensando na
história do século XX ou nos últimos confrontos no Oriente Médio atual. A
composição de João foi redigida com olhos para a sua realidade imediata, para
as pessoas de sua época e para a situação ao seu redor.
João fazia parte de
uma corrente de pensamento judaico que havia surgido pelo menos trezentos anos
antes dele, durante os dias em que a Judéia era dominada pelo império grego.
Oprimidos por um inimigo externo e, por vezes, até mesmo por seus correligionários,
alguns judeus começaram a se perguntar por que o seu povo estava sendo
massacrado com impostos e serventia a um poder estrangeiro, mesmo sendo a nação
escolhida pelo único Deus verdadeiro. A resposta, certamente por influências de
pensamentos advindos de outras culturas, foi encontrada na dicotomia entre o
bem e o mal: o mundo atual é dominado pelo inimigo de Deus, Satanás, e a
realidade social e política que é vista na Terra é apenas um reflexo daquilo
que acontece no mundo celestial, onde uma batalha cósmica entre as forças do
bem e as forças do mal acontece. Contudo, na visão desses judeus, Deus venceria
a batalha, vindo dos céus com seu exército celestial para derrotar Satanás e
seus representantes terrenos: os impérios que dominam os judeus.
Esse pensamento deu
origem ao gênero literário que os estudiosos chamam de
"apocalíptico", em homenagem ao representante mais famoso do estilo,
o Apocalipse de João. Os livros que são catalogados sob esse gênero possuem
algumas características em comum: eles são revelações (no grego, apokalypsis,
formada pelas palavras apo = retirar e kalumma =
véu; por isso, revelação ou retirar o véu, desvelar) trazidas por
um ser celestial que conhece a realidade cósmica e a transmite para um escritor
humano. Essa mensagem é carregada de símbolos e de uma linguagem oculta, que
por vezes é ininteligível ao leitor comum e ao receptor, mas é decodificada
pelo revelador. Logo no primeiro capítulo do Apocalipse de João, é possível
perceber essas características: trata-se da revelação (apocalipse) de Jesus que
ele deu a um anjo para que este a levasse até João. Um exemplo da linguagem
codificada e simbólica é visto nos sete candelabros e estrelas que precisam ser
explicados pelo anjo: "Quanto ao mistério das sete estrelas que você viu
na minha mão direita e quanto aos sete candelabros de ouro, as sete estrelas são
os anjos das sete igrejas, e os sete candelabros são as sete igrejas"
(1:20).
Após a morte de
Alexandre o Grande e a divisão do seu império, foi a vez de Roma dominar o
território dos judeus. Foi neste período que o visionário João escreveu a sua
revelação, e é com essa mentalidade de guerra celestial representada na Terra
que ele interpreta a realidade ao seu redor. Isso pode ser visto em diversas
passagens do livro onde o autor faz alusão a Roma de maneira quase explícita
para os leitores da época.
Roma era conhecida
como a cidade das sete montanhas por ter sido fundada em uma localidade
geográfica rodeada por sete colinas que cercavam a comunidade romana primitiva.
Até mesmo algumas moedas da época carregavam o desenho de uma mulher sentada
sobre sete montanhas, um símbolo comum para representar a cidade de Roma. Em
mais um exemplo da linguagem simbólica que é decodificada pelo revelador ao
escritor, uma figura monstruosa é explicada a João: "Aqui está a mente que
tem sabedoria: as sete cabeças são sete montes, nos quais a mulher está
sentada" (17:9). Para os leitores, os quais conheciam a história das
montanhas de Roma, ficava muito claro sobre quem João estava falando: a grande
prostituta que se embriagava com o sangue dos mártires cristãos e que está
assentada sobre as sete montanhas era a cidade de Roma, capital do império que,
na perspectiva de João, assolava os seus compatriotas.
Um outro bom
exemplo de alusão ao império romano no Apocalipse de João é o nome
"Babilônia", que era usado na época como um nome simbólico para se
referir ao grande inimigo romano que oprimia os judeus, em alusão ao antigo
império babilônico que os havia causado grande destruição e levado ao
cativeiro. Em sua descrição da mulher assentada sobre as sete montanhas, em
mais uma clara referência ao império que a cidade representava, João afirma: “Na
sua testa estava escrito um nome, um mistério: Babilônia, a Grande, a Mãe das
Prostitutas e das Abominações da Terra” (17:5).
Contudo (e finalmente
mais próximo do nosso tópico sobre o número da besta), João usa uma alusão
ainda mais forte sobre Roma e seus imperadores: "São também sete reis, dos
quais cinco caíram, um existe e o outro ainda não chegou; e, quando chegar, tem
de durar pouco tempo. E a besta, que era e não é mais, é também o oitavo
rei, mas faz parte dos sete, e caminha para a destruição" (17:9-11). Nesse
trecho, João se refere a alguns reis (ou imperadores) desse império, e nos
fornece algumas pistas para descobrirmos quem são eles. Ele cita uma sucessão
de reis que já se foram (cinco), um que é o rei presente ("existe",
sexto), um que não durará muito (sétimo) e finalmente o oitavo, que "era e
não é mais, mas que faz parte dos sete", ou seja, um dos reis havia
perdido o seu poder (ou morrido?), mas retornaria como o oitavo e último rei, e
este também é a besta. De qual imperador João estaria falando?
Na época de João,
havia uma lenda popular, famosa entre judeus e cristãos, que falava sobre um
imperador romano que havia perdido o seu poder, mas retornaria para tomar o império
novamente: Nero. A lenda, conhecida pelos historiadores como Nero
Redivivus (Nero Renascido), havia surgido com a crença de que o
imperador não havia cometido suicídio, mas fugido para o Oriente, de onde voltaria algum dia. A lenda
possuía algumas variantes, as quais também diziam que algum novo imperador
surgiria com a mentalidade (forma de viver e governar) de Nero. Muitos na época
esperavam ansiosos pelo retorno do imperador, e algumas pessoas, tentando
usurpar o poder imperial, apareceram dizendo ser o próprio Nero. É a essa lenda
que João se refere quando fala sobre o oitavo imperador que fez parte dos sete,
e foi em meio a esse cenário de medo do retorno do imperador que havia queimado
cristãos em cruzes para iluminar o seu palácio que o Apocalipse de João foi
escrito: a batalha entre Deus e Satanás era refletida na batalha entre os
cristãos e o império romano. A lenda do Nero Redivivus nos fornece a pista para
decifrar o mistério do número da besta.
No capítulo 13, João
fala que o dragão (o qual o autor já havia identificado como o diabo/Satanás:
"o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o
sedutor de todo o mundo" 12:9) deu poder à besta, e uma das cabeças dela
"parecia ter sido golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi
curada." Mais adiante, em meio a uma série de alusões ao culto do
imperador romano, o autor fala sobre "a primeira besta, cuja ferida mortal
havia sido curada" e sobre os moradores da terra fazendo "uma imagem
à besta, àquela que foi ferida à espada e sobreviveu". Essas são claras
referências à lenda sobre o retorno de Nero. Ao final do capítulo com todas
essas alusões, João faz um desafio: "Aquele que tem entendimento calcule o
número da besta, pois é número de ser humano. E esse número é seiscentos e
sessenta e seis." O que o escritor queria dizer com "calcular"
(ou, mais precisamente segundo o original grego, "contar/somar") o
número da besta?
No mundo antigo,
antes da adoção do sistema arábico de numeração (os dez símbolos de 0 a 9),
cada letra do alfabeto era equivalente a um valor numérico. Por exemplo, a
primeira letra do alfabeto grego (alfa = α) representava o número 1, a segunda
(beta = β), o 2 e assim por diante, formando dezenas e centenas a cada grupo de
dez letras. Com as letras representando números, era possível somar
(contar/calcular) o número equivalente às letras que formam um nome. Essa
técnica, chamada pelos estudiosos de gematria, era muito utilizada no período
em que o Apocalipse de João foi escrito, e servia como meio de falar em
segredo, uma espécie de escrita codificada para representar nomes. É disso que
João está falando nesse trecho: o autor conclama os seus leitores/ouvintes a
decifrar o nome cujo número na gematria é equivalente a 666. Quem seria essa
pessoa (número de ser humano)? João já havia dado pistas suficientes: o oitavo
rei, aquele que havia sido ferido com ferida de morte, mas que retornaria,
aquele que fazia parte dos sete que já haviam passado: Nero César.
O Apocalipse de João
foi redigido em grego. Assim, seria lógico pensar que o nome Nero César escrito
com o alfabeto grego deveria se encaixar com o número 666, mas isso não
acontece. Entretanto, devido ao seu estilo de escrita em grego e a sua teologia,
os estudiosos concordam que o autor era um judeu escrevendo em grego. Como
judeu, ele usou a gematria de forma engenhosa, algo que não era novidade em sua
época e contexto: João usou o alfabeto hebraico para escrever o nome grego Nero
César (Neron Kaisar) e somou os valores equivalentes às letras daquele
alfabeto, não do grego, para chegar ao seu famoso número. Se o nome grego Nero
César for escrito com as letras do alfabeto hebraico, a soma dos números
equivalentes a cada letra resulta em exatos 666: Nrwn Qsr (o
alfabeto hebraico não possui vogais) N = 50, r = 200, w = 6, n = 50, Q = 100, s
= 60, r = 200. Se o nome Nero César for escrito na sua forma latina, ele perde
uma das letras finais (N), e a soma dos valores numéricos do alfabeto hebraico se
torna 616. Esse número aparece em um manuscrito antigo do Apocalipse de João.
Provavelmente, os cristãos responsáveis por essa tradição textual estavam
acostumados com a versão latina do nome e adaptaram o número para que
correspondesse ao que conheciam, no intuito de evitar qualquer engano entre
seus leitores.
Apesar da discordância de alguns comentaristas, essa interpretação sobre
o significado do número da besta no Apocalipse de João é aceita pela maioria
dos estudiosos críticos do Novo Testamento e hoje se qualifica como a mais provável
alternativa dentro do contexto histórico e também exegético do livro.
O Apocalipse de João não fala sobre uma guerra nuclear futura ou sobre
visões que um judeu antigo teve a respeito do mundo moderno. Não se trata de um
mapa para a interpretação do nosso futuro. Esse livro retrata o contexto
imediato de seu autor, o qual se via oprimido por um império mundial que, aos
seus olhos, estava conquistando muitos de seus correligionários. Para o
visionário João, a batalha cósmica entre Deus e o Diabo estava refletida na sua
luta pessoal contra o império romano. Como outros judeu-cristãos de sua época, todos
eles adeptos do apocalipticismo, João aguardava a intervenção final de Deus
para acabar com o sofrimento dos cristãos de sua comunidade. Para ele, essa
intervenção se daria imediatamente (“o tempo está próximo” 1:3), não apenas
depois de se passarem dois mil anos de história.